A estrutura

John McPhee não era nem da primeira nem da segunda geração do Jornalismo Literário. Sem ele, talvez não teríamos tido nenhuma.

John McPhee,
Oranges (Farrar, Straus & Giroux, 1968)
Silk Parachute (Farrar, Straus & Giroux, 2010)
Draft No.4: On the Writing Process (Farrar, Straus & Giroux, 2017)

Escrever, fato já provado por alguns nomes desde a epopeia de Gilgamesh, é um parto de gêmeos: as palavras, concatenadas e ligadas umas às outras como um vagão de trem de várias e várias páginas, precisam cumprir o duplo desafio de expressar a real vontade da pessoa por trás de sua concepção, e, ainda sim, manter o futuro leitor preso e amarrado à própria curiosidade. Tem gente que fez isso mal – e os séculos trataram de enterrá-los ou então deram-lhes montanhas de dinheiros e sequências de filmes e parques temáticos. Teve gente que fez isso muito bem, e tem gente que fez isso tão bem a ponto de citarmos seu sobrenome em algum café ou encontro, de usarmos como mantra caso algum déspota seja eleito, por exemplo (é do Hemingway aquela agora clássica passagem do “e importa quem está ao nosso lado nas trincheiras?”).

E tem os jornalistas.

É preciso segregar a categoria da qual faço parte porque, independente da imagem atual sobre jornalistas (spoiler: nunca esteve pior), aqueles que se importam com o bom texto têm reservados para si um parto de trigêmeos: além das duas primeiras missões, é deles esperada uma terceira – a de que tudo ali relatado seja verdade. Ou, então, a fila dos ficcionistas seria ainda maior e mais extensa.

Alguns nomes se destacaram desde que o carinho com o texto jornalístico se tornou algo apreciado, no final dos anos 1960: no Brasil, tivemos nomes imponentes como José Hamilton Ribeiro e Audálio Dantas. Mas foi nos Estados Unidos que as coisas realmente ganharam destaque: jornalistas natos como Gay Talese, Tom Wolfe e George Plimpton se uniram a escritores de carreira, como Norman Mailer e Truman Capote, para uma pequena competição interna sobre quem teria o texto mais redondo, a história mais fantástica, contada em detalhes ainda mais fantásticos, sem jamais perder a perícia.

Com o envelhecimento dessa geração, que buscou sua carreira na produção de livros-reportagem e de ficção, uma segunda leva de ensaístas e jornalistas fez seu nome: nos Estados Unidos, David Remnick promoveu o renascimento da New Yorker como um  marco zero do jornalismo trabalhado e trabalhoso, enquanto outras revistas e jornais continuaram com um pesado investimento em reportagem. Dentro da categoria dos jornalistas literários, há uma parcela ainda menor, composta apenas por John McPhee. Sua obra, de tão complexa e impressionante, não permite que o misturemos com essa gentalha toda.

© Stephanie Vecellio

Diz a lenda que John McPhee, em 1963, foi parar na New Yorker como repórter. O fato é que, 55 anos e 30 livros depois, ainda continua lá – sua peça mais recente foi publicada em março de 2018. Um dos mais longevos de sua área (e sem dúvida o mais discreto de sua geração), McPhee sempre seguiu à sombra de todos os grandes nomes contemporâneos.

A começar pela sua obra: muito provavelmente nenhum autor cobriu uma pletora de temas tão variados e dispensáveis como ele. Uma pequena lista exemplificativa: Coming into the Country narra uma jornada pelo interior do Alasca; The Survival of the Bark Canoe fala da construção de uma antiga canoa tradicional no nordeste americano, e The Pine Barrens é sobre uma área isolada no meio do estado de Nova Jersey, sem nada a não ser árvores. Eu tenho aqui à minha esquerda, na estante, um exemplar de um desses livros, onde ele passa um bom tempo esquadrinhando o potente exército suíço, que não entra em uma guerra desde 1815. Normalmente longas reportagens publicadas por ele na revista virariam livros logo depois, a maioria ainda impressos.

Um dos mais famosos entre eles, Oranges, é extremamente autoexplicativo. São 149 páginas única e exclusivamente sobre a história da laranja, seu cultivo no estado americano da Flórida e alguns dos seres humanos por trás disso. Abrir as páginas ao acaso é encontrar informações cada vez mais essenciais – mesmo que seu interesse em frutas cítricas jamais tenha passado de um Globo Rural.

Lembro de ter iniciado a leitura de Oranges num sábado, em setembro de 2013, debaixo de um sol escaldante na fila do Rock in Rio. Como ficaria ali por horas, tostando sob o sol infernal da Barra da Tijuca, me precavi e levei aquele livro, que achei num sebo e que me havia sido indicado, meses antes, por Edvaldo Pereira Lima, um dos grandes estudiosos do jornalismo literário no país e talvez um dos poucos habilitados no Brasil para falar da prosa do americano. Como não há versões em português, traduzo aqui um trecho do que li naquela fila:

Não havia laranjas no hemisfério ocidental antes de Colombo introduzi-las. Foi Pizarro quem as levou para o Peru. As sementes que os espanhóis levavam vieram de árvores que entraram na Espanha com o levante do Islã. O desenvolvimento da botânica da laranja deve algo a Vasco da Gama e ainda mais a Alexandre, o Grande; laranjas tinham importância simbólica nas pinturas de mestres renascentistas; noutras épocas, ao menos duas esmagadoras invasões à Península Itálica foram inspiradas pelas visões do paraíso que as laranjas engendraram nas mentes dos povos do norte. Laranjas foram, certa vez, a fruta dos deuses, para quem eram maçãs douradas das Hespérides, roubadas por Hércules. Então, em sucessivas declinações, laranjas se tornaram as frutas dos imperadores e dos reis, do alto clero, da aristocracia e, lá pelo século XVIII, da burguesia rica. Outros cem anos se foram até que elas entrassem ao alcance da classe média, e não antes do começo deste século [o XX] que finalmente viraram uma fruta da comunidade.

O relato feito por John McPhee é tradicionalmente denso, técnico e atento a detalhes no tempo presente e no plano histórico. Tente imaginar a quantidade de minúcias presentes em Coal Train, uma matéria da New Yorker em duas partes sobre o CTSBT, um trem de carvão de exatos 7.485 pés (2.281 metros) de comprimento, e sua jornada entre o Kansas e o Nebraska. Ou mesmo todos os nomes de rochas presentes na série de livros que culminou em Annals of the Former World, com a qual McPhee venceu o Pulitzer em 1999.

Para nós, isso pode se revelar um fardo: uma versão surrada e de bolso de Coming into the Country está na minha estante há anos, esperando que eu ultrapasse a marca dos 25% – o que se torna impensável com tantos nomes de peixes, pedras, árvores e coisas próprias que não são facilmente convertidas para o português.


É na estrutura, porém, que a obra se torna monstruosa, e monumental para padrões jornalísticos. Aqui, avanço ao Silk Parachute, uma coletânea de matérias e ensaios menores publicada em 2010.

Outro livro garimpado em sebo (dessa vez, já por motivação própria), o compêndio de textos escritos é como um fractal – único por sua essência, mas que reflete a salada de frutas na qual McPhee se especializou. Há textos sobre suas férias nos penhascos do litoral inglês (Seasons on the Chalk), sobre o lacrosse (Spin Right and Shoot Left) e golfe (RIP Van Golfer). Talvez o mais chocante destes ensaios seja Checkpoints, que mergulha na cultura de checagem do jornalismo americano, quase que como uma reportagem às avessas, sobre tudo o que é feito para que uma matéria saia factualmente correta.

Para você que tomou a acertada decisão de ser qualquer coisa na vida menos jornalista, apresentamos a principal característica da New Yorker, a quase sexagenária casa de McPhee: a magazine, que roda semanalmente há 93 anos, tem uma equipe de checagem de fatos que praticamente reconstrói o caminho feito pelo repórter, por outras fontes, para garantir sua veracidade. Em The curve of Binding Energy, reportagem que viraria livro em 1973, McPhee se debruçou sobre o perfil de Theodore B. Taylor, um físico nuclear que temia que num futuro próximo as pessoas e corporações pudessem construir bombas atômicas sem maiores problemas. Entregue a primeira versão aos editores por McPhee, caberia a equipe de “checadores” da revista analisar as minúcias – este átomo tem mesmo x elétrons? Tal usina nuclear fica mesmo neste endereço? – e afins.

Em Checkpoints, McPhee conta, porém, que outras informações mais complexas precisavam de um comprometimento maior dos checadores, esforço esse maior do que tinha o próprio repórter ao apurar os fatos de sua história. Um exemplo seria o caso dos fūsen bakudan, ou balões de fogo, lançados pelo império japonês contra os Estados Unidos na Segunda Guerra. Um desses balões incendiários, segundo apurou o repórter, teria sido carregado pelo vento e caído dentro de um centro de desenvolvimento do que viriam a ser as bombas atômicas, e que poderia causar uma hecatombe jamais vista. A informação, contada em tom de anedota, precisaria ser confirmada se quisesse estar ali. Com poucas horas para a deadline de entrega da matéria, os checadores alcançaram John Wheeler, o único capaz de, quase 30 anos depois do ocorrido, confirmar se tal evento ocorreu ou não. John Wheeler era um aposentado, no sul da Flórida, e não estava em casa. Com o auxílio de algumas listas telefônicas (It’s the 70’s, baby) e da equipe de polícia local, Wheeler foi encontrado em um shopping da região, e se mostrou surpreso que tal fato tivesse vindo à tona. Estupefato, o entrevistado pergunta à checadora, “como você sabe disso?”, e a corrige: realmente um balão de procedência japonesa chegou próximo de explodir no Hanford Engineer Works, o primeiro reator nuclear de larga escala do mundo, e que concentrava plutônio usado nos testes durante o inverno de 1944 e 1945. O balão, porém, acabou caindo sobre os fios elétricos, pegando fogo logo em seguida. Com a breve alteração, o texto pode seguir para a publicação. Essa coisa toda com os checadores fica ainda mais meta: a história da confirmação destes fatos ocorreu, já que a própria Checkpoints acabou publicada pela New Yorker.


É esse tipo de atenção e detalhamento no próprio texto que torna o caso de McPhee, além de único, uma experiência prazerosa. O Jornalismo Literário americano, que moldou também a visão brasileira sobre o tema, tem duas fases bem distintas: a primeira é a clássica, nos anos 1960, com aqueles nomes citados no começo do texto. Se tomarmos Capote, Mailer e Talese como paradigmas desta vertente, veremos uma fidelidade muito grande aos cânones da literatura moderna, um apego fiel às construções de cenas tais como tentadas por Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald ou Leon Tolstói, se jornalistas fossem. O esprit de corps daquela década se refletiria melhor em Tom Wolfe, com seu estilo extremamente despojado e iconoclasta, beirando mesmo a irreverência hostil a alguns de seus “objetos de estudo”.

Desses, Tom Wolfe foi quem mais fincou raízes: a segunda geração, surgida a partir dos anos 1990, teria mais semelhança com ele do que com seus contemporâneos, talvez menos por sua influência do que por coincidência: John Jeremiah Sullivan, David Foster Wallace e Chuck Klosterman, alguns dos mais brilhantes ensaístas de que minha cabeça lembrou nos últimos dez segundos, têm um papel mais reconhecível na literatura pós-moderna, onde o cinismo e a desconfiança irônica são algumas das armas narrativas mais usadas.

Nenhum desses três autores trabalha como McPhee, que busca os mesmos resultados, mas por caminhos diferentes. No que parece ser o único perfil escrito sobre ele, publicado em 2017 pela New York Times Magazine, fica explícita a obsessão que o escritor tem pela estrutura do texto, a colocação de palavras certas nas orações certas, e as orações certas nas frases certas, como um grande trem de carvão onde, mesmo que toda carruagem pareça ser um vagão de carvão como outros, está naquele exato lugar por algum motivo. O autor do perfil, Sam Anderson, chama a organização de “quase super-humana”, por processar todo o montante apurado (entrevistas, rascunhos, anotações, fragmentos de jornais e revistas sobre o tema) e dividi-lo em temas e subtemas.

“Não havia discussões profundas sobre inspiração”, conta David Remnick, hoje chefe de McPhee, sobre as aulas que tinha com o autor. “Você estava na sala com um artesão, e não com um acadêmico ou crítico […]. A questão é a técnica. Do mesmo jeito que um estudante de medicina, na mais bruta anatomia, aprende o que é um baço e o que ele faz, nós aprendemos como as coisas funcionam numa peça escrita”.


Sim, eu disse aula. Filho de professores de Princeton, McPhee acabou como um catedrático na mesma faculdade, e está lá até hoje. Em 1999, soube no intervalo de uma aula que seu livro havia ganhado o Pulitzer. Seus alunos, que voltaram à aula sem saber, só entenderiam o que se passava quando uma leva de fotógrafos, jornalistas e outros professores interpelou o repórter, já na saída da sala.

E é sobre o processo de escrita que trata este que é, até o momento em que escrevo, um de seus livros mais recentes (o mais recente é uma nova coletânea chamada The Patch, lançada em novembro de 2018 no mercado americano).

Talvez porque o ímpeto de se manter como um jornalista ávido encontre cada vez mais obstáculos em um corpo de 87 anos, McPhee se dedica hoje a repassar seu conhecimento à frente, com livros que falam mais sobre o processo de escrita criativa. Draft No. 4  é uma destas coletâneas de ensaios, focada apenas na arte que é colocar tudo no seu devido vagão, colocar os vagões na ordem correta e… bem, colocar o ferrorama para rodar.

O que não impede o nascimento de peças fiéis à carreira de McPhee. Para isso, voltemos à mais recente obra publicada por ele na New Yorker: na edição de 5 de março de 2018 – portanto aos 86 anos e 362 dias de vida – John McPhee resolve falar sobre os ursos negros de Nova Jersey e sua (de John McPhee) “aparente quixotesca” vontade de vê-los (os ursos) andando a partir de dentro de casa.

A narrativa começa com a construção de sua residência, em 1966, a poucos quilômetros da Universidade de Princeton, passando pelos bosques e, por fim, chegando a uma análise bastante suave dos cerca de 2.500 ursos que habitam o estado. Os dados que permeiam o texto de uma ponta a outra, passando por recortes de jornais e nomes de condados, são fidedignos, pois é isso que se espera de uma grande equipe de checadores como a que existe na revista. E termina com uma decepção: meio século depois, sem ter visto um único mamífero desses, ele recebe a notícia que sua mulher, Yolanda, avistou um, no quintal dos fundos da casa. E McPhee?

Eu estava em um estúdio no subsolo de um novo prédio no campus de Princeton fazendo um podcast sobre o técnico de basquete de Princeton, Mitch Henderson.
Meu currículo permanece vazio. Olhando para baixo de nossas janelas, jamais vi um urso. Mitch Henderson vai ter de ver. E enquanto isso, enquanto Yolanda observa, o urso alcançou o meio do pasto e se sentou. Isso não aconteceu antes do nascer ou pôr do sol. Foi no fim da manhã. O urso não estava com medo ou algo do tipo. Mexendo seus ombros, flexionando, curvando-os, banhando-se do sol, se penteava sozinho. Sentava-se ali e se penteava sozinho (!!!) enquanto eu, conversando com Mitch, estava em um porão desenhado por Frank Gehry, e Yolanda, cuja alma é cheia de presença, tirava fotos do urso.


Guilherme Lazaro Mendes é repórter no portal JOTA, em Brasília, e ensaísta nas horas vagas.

Guilherme Lazaro Mendes. A estrutura. Revista Porto Alegre. v. 1, n. 1, p. 93–105, jul./dez. 2018.