As políticas “de fora” da internet

Em Big Tech, Evgeny Morozov analisa o processo de constituição e ascensão das grandes empresas de tecnologia. Enquanto se opõe às ideias de um pós-capitalismo, o autor coloca de maneira não muito otimista os prospectos de ascensão das cinco maiores empresas de tecnologia americanas.

Evgeny Morozov, Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política (Ubu, 2018).

O livro Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política é uma coletânea de textos traduzidos de Evgeny Morozov, jovem autor bielorrusso cuja importância nesta discussão encontra repercussões em um nível global. O lançamento da reunião de textos sobre as relações entre o político e a internet, que marca a estreia do autor na língua portuguesa, não poderia se dar em momento mais propício, atravessado por ondas de fake news e, mais do que nunca, por mediações tecnológicas nas formas das nossas relações. Nestes tempos de crise diplomática – seja em um nível macro, pelas manobras de lobby de empresas privadas que se favorecem de políticas públicas sucateadas, ou em um nível micro, pelos esvaziamentos narrativos e pelas rupturas nas relações intersubjetivas –, a editora Ubu disponibiliza essa coleção inédita de ensaios.

Fica estabelecido, já na introdução do livro, que sua proposta não é analisar a política e a internet como duas instâncias separadas, mas investigar suas conexões. Por este ponto de amarre, Morozov associa a cibercultura ao que denomina como um “fora da internet”. Esse “fora” seria sustentado pela cibercultura e, ao mesmo tempo, a cibercultura seria sustentada por esse contexto, numa relação intrínseca e sub-reptícia de interdependência.

Apontando para um enredo político-econômico que explica o crescimento das grandes empresas de tecnologia ao longo dos últimos anos, o autor analisa de maneira crítica os vínculos entre o mercado, de um lado, e as iniciativas de uma inteligência digital, de outro – respectivamente, Wall Street e Vale do Silício. Em seu argumento, Morozov apresenta os furos da lógica pretensamente lisa de um neoliberalismo que busca limitar iniciativas que prescindam das mediações capitalizáveis das plataformas digitais, e que faz isso de forma dissimulada pela interface sorridente e aparentemente prática de um mundo de aplicativos, portais de comércio e plataformas de pesquisa.

(© Gary Hunt)

Para Morozov, estamos autorizados a odiar as empresas do Vale do Silício, como sugere o título do primeiro capítulo. Um primeiro motivo é o fato de as empresas desta região estarem construindo, segundo os termos do autor, uma “‘cerca invisível de arame farpado’ ao redor das nossas vidas” (p. 31). O conceito entre aspas faz referência a uma emancipação e uma liberdade que se apresentam de maneira apenas aparente a quem consome os serviços, por exemplo, de mapeamento digital via GPS ou dos emergentes Massive Open Online Courses (MOOCs). Enquanto apresenta as lógicas de controle dessa sistemática, Morozov sustenta que tendemos a depender, mais e mais, dos serviços oferecidos por essas empresas para cumprir nossas tarefas diárias, num adensamento do arame farpado mencionado. Ao se institucionalizar, essa cerca invisível impede que enxerguemos para além de seus domínios, dando a falsa impressão de que inexistem alternativas a um status quo que não estejam condicionadas pelos operadores digitais do Vale do Silício.

Morozov aprofunda esse argumento ao analisar iniciativas como o crowdfunding para apontar as manobras sociais que se colocam pela tecnologia: serviços aparentemente interessados em fornecer bem-estar e igualdade, mas que, subterraneamente, se colocam a serviço não de uma política de garantia de direitos, mas de um mercado de captura de dados. Nesse mercado de criação de dependência, estão serviços de transporte, hospedagem, investimento cultural e administração pessoal oferecidos por empresas como Uber, Airbnb e, principalmente, Google.

Morozov concentra-se também na discussão sobre as maneiras como estas “invenções” são colocadas em diálogo com as diferentes formas de governo. O autor expõe os paradoxos de uma cultura da internet que, por um mecanismo novo, borra os limites entre o Estado e o mercado e, por vezes, torna invisíveis seus meios, limitando-se a apresentar seus fins. A sensação de precariedade social que decorre desses movimentos, segundo Morozov, é propícia para as empresas do Vale do Silício, que se beneficiam da implementação de políticas de parceria público-privada. Pela capitalização de dados a médio e longo prazo, esse tipo de relação acaba por beneficiar mais seus empreendedores que os interesses de seus usuários ou da população em geral. Artimanhas lógicas, por fim, acabam por legitimar a concepção de que os problemas de ordem pública dependem não de uma solução política, mas de um “gerenciamento mais acurado” destas informações.

Enquanto critica a interpretação de que há uma “colagem” entre o mercado e o político, Morozov traz os exemplos de políticas de informação dos governos americano, iraniano, russo e chinês. Traçando um paralelo entre a organização dos regimes ditos totalitários, de um lado, e dos Estados Unidos, de outro, o escritor pensa a respeito das permissões e dos direitos de liberdade individual nos meios da internet. Em uma reflexão angustiante sobre as estratégias de controle implicitamente colocadas ao uso de cada gadget introduzido no mercado (que interpelam cada vez mais os usos básicos de um cotidiano), Morozov afirma que os assuntos que envolvem o digital não devem se restringir a esse campo; em vez disso, suas associações devem ser pensadas politicamente de forma ampla.

Ao final do capítulo sobre o que chama de catástrofe informacional, o autor sustenta, em relação a uma discussão anterior sobre o meio ambiente, que talvez não estejamos percebendo os efeitos nefastos do consumismo informacional. Morozov se coloca contrariamente a qualquer revolução tecnológica feita em detrimento da democracia. Desnecessário dizer que neste ponto, como em outros momentos do texto, o autor não pretende assumir um discurso tecnofóbico, mas apontar criticamente os momentos em que uma tecnologia está sendo tomada principalmente para os fins de um mercado.

Em Big Tech: Pós-Capitalismo, Morozov se detém à leitura do processo de constituição e ascensão das grandes empresas de tecnologia. Ali, enquanto se opõe aos referenciais que introduzem a ideia de um pós-capitalismo, o autor coloca de maneira não muito otimista os prospectos de ascensão das cinco maiores empresas de tecnologia americanas – Apple, Google, Facebook, Microsoft e Amazon. Para tanto, apresenta os momentos em que as políticas dessas corporações revelam estratégias de um capitalismo muito clássico. Como exemplo, cita a coleta de dados como matéria prima para concepção de produtos baseados em inteligência artificial – ensaiado nos últimos anos principalmente pela Alphabet, conglomerado de empresas que engloba, entre outras iniciativas, a Google.

Talvez com o intuito de injetar uma dose de esperança à leitura, ou de simplesmente procurar alguns pontos de fuga à manipulação que se coloca pelas estratégias de mercado da tecnologia, o penúltimo capítulo de Big Tech, intitulado A Mediação Digital de Tudo: na Interseção da Política, da Tecnologia e das Finanças, após um breve resgate de alguns pontos de crítica já colocados, com um aprofundamento das relações entre as fake news e o big data oferece propostas e sugestões destinadas a “reverter ou ao menos retardar algumas das tendências escritas anteriormente” (p. 174).

Neste momento, interpõem-se brechas à lógica predominantemente crítica da reunião de textos que estamos investigando aqui. Por apontamentos breves e certeiros, que mostram um posicionamento mais nítido nestes capítulos finais do livro, Morozov apresenta algumas direções para reivindicar formas de resistência ao modo de funcionamento das empresas do Vale do Silício.

Em primeiro lugar, aproxima o trabalho dos artistas e dos cientistas pelo convite a que se inventem pensamentos que se situem além da lógica que confortavelmente nos oferecem essas empresas. Como exemplo, fala da tentativa de articular uma visão do futuro que não se restrinja à dependência do consumismo – de maneira geral ou, especificamente, de dados. O decorrer do capítulo nos dirá que isso seria possível caso fossem elaboradas táticas para tornar visíveis as estratégias perversas que se acobertam por detrás das interfaces sorridentes das plataformas digitais – e que, por seus dispositivos, fazem supor individuais os impasses que deveriam ser discutidos em uma arena da política.

As orientações são simplórias, mas se justificam pelo conjunto da obra: apesar de sucintas, assumem uma importância fundamental quando associadas a todo o contexto que Morozov constrói a fim de explicar, de maneira objetiva e lúcida, os estratagemas de uma tecnologia capturada por interesses sórdidos do capital.

O político ganha novamente interesse quando Morozov trabalha as aparentes “facilidades” que se colocam mediadas por uma relação de compra – por exemplo, de serviços de privacidade. Como resposta a esse cerceamento sutil e ardiloso da liberdade, é premente que distingamos o que é oferecido como serviço do que é garantido por direito por meio de leis constitucionais. Esse ponto encontra associações com a discussão sobre a figura do hacker – personagem que, pelas tentativas de fazer furo a uma tecnologia através dos próprios meios desta, coloca alternativas à sistemática de seu funcionamento.

Um ponto importante se sublinha, ainda, quando se desacreditam os métodos empíricos e positivistas das análises de dados voltadas a discriminar fake news. Brevemente, Morozov critica uma lógica binária desse funcionamento – que, interessada apenas em categorizar entre verdadeiro e falso, prejudica a construção do conhecimento. Por um raciocínio lógico que surpreende por sua evidência, o último capítulo, Quem Está por Trás das Fake News, trata de criticar mais o ambiente conveniente à disseminação de informações falsas que, de fato, a sua existência. Para o autor, as fake news podem ser vistas como um subproduto do capitalismo digital, onde valem mais os cliques gerados pela absurdez da manchete do que os acontecimentos que ela relata ou as repercussões que causa. O texto conclui com uma nova brecha: uma chamada em defesa da democracia, a que nos apercebamos da influência dos anúncios virtuais em nossas vidas; e, ainda, a que deleguemos mais poder de decisão aos cidadãos, com o intuito de construir um mundo em que o Facebook e o Google “não exerçam tanta influência, nem monopolizem a solução de problemas” (p. 187).

Em linhas mais gerais, há pertinência no tom crítico que assumem as elaborações dos textos reunidos em Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política. As posições que Morozov manifesta nestes fragmentos são eficientes para que se desvendem algumas das estratégias das empresas de tecnologia do Vale do Silício. Em alguns pontos, no entanto, a postura crítica do autor pode tornar a leitura sufocante – ao menos até os momentos finais do conjunto, em que as elucubrações a respeito de um contexto dificultoso se associam a propostas de intervenção. Resta saber, no entanto, se é apenas um ceticismo de Morozov o que causa a sensação ou se essa não é consequência, justamente, do estreitamento da “cerca de arame farpado” ao redor das nossas vidas.

Por uma via ou por outra, a experiência desta leitura, que desvela e entende os funcionamentos implícitos do mercado digital, certamente conduz e instiga a reinventar os meios para respirar.


Léo Tietboehl é psicanalista e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura da UFRGS.