Isto que chamamos Revista Porto Alegre

Lançamos uma revista.

O significado próprio disto que chamamos Revista Porto Alegre, naturalmente, só virá com o tempo. Quando se lança uma revista, é de praxe e de bom tom, pelo menos em um primeiro número, que seus editores redijam um longo texto, espécie de manifesto, que lhe justifique a existência. Essa é, contudo, uma tarefa hercúlea e ingrata, que provavelmente não seremos capazes de cumprir. Como disse Ernst Gombrich, historiador da arte inglês, não precisamos de bons motivos para gostar de uma obra de arte – podemos apenas gostar, sem pensar muito; por outro lado, precisamos de bons motivos para não gostar de uma obra de arte. Queremos crer que coisa parecida esteja em jogo com uma revista de crítica: o fechamento de uma exige mais explicações que sua abertura.

Por ora, basta dizer que estamos interessados em uma coisa: a crítica de ideias, nas formas e com os objetos em que aparece – teoria, arte e literatura; pensamento, sociedade e cultura. Nosso compromisso é menos com a velocidade jornalística da reportagem e mais para com a atenção detida do longform. Os textos que publicaremos serão editados, como gostamos de chamar, de maneira “artesanal”, com contato próximo aos autores e às autoras, e com zelo especial pela experiência da leitura.

Revista Porto Alegre surge em diálogo com a situação da esfera de produção e circulação de ideias em que se insere e tem como um de seus objetivos principais ajudar a suprir a lacuna criada pelo declínio dos suplementos literários e culturais que acompanhavam os jornais impressos. Servem como referências periódicos estrangeiros como o London, New York e Los Angeles Review of Books e nacionais como as revistas Quatro cinco um, Rascunho, Pernambuco, Serrote e Piauí, sobretudo em seu compromisso com a forma escrita e cuidado com o tratamento de seus temas.

Lançada 150 anos após a fundação da Sociedade Partenon Literário, instituição cultural portoalegrense entre as mais importantes na história do Brasil, a marcação geográfica no nome, Revista Porto Alegre, não é acidental – ao mesmo tempo que observa uma tradição toponímica na nomenclatura de periódicos de ensaios e resenhas, salienta, no âmbito da produção cultural sul-riograndense, seu esforço de descentralização para além do eixo Rio–São Paulo.

Receberemos e publicaremos, em fluxo contínuo, resenhas, ensaios, traduções e entrevistas nas áreas de artes, humanidades e ciências sociais. Ao final de cada semestre, editaremos um novo número, com os artigos publicados naquele período. Os textos serão publicados em nosso site, e a discussão pode sempre continuar pelas nossas páginas no Facebook e no Twitter. A autoras e autores, convidamos a conferir nossas diretrizes para submissão.

Assim como a pedra lançada pela mão está em poder do ambiente e do acaso (em poder do diabo, alguém diria), a recepção que terá um veículo de circulação crítica de ideias, num cenário sociopolítico em que esse tipo de atividade é desprivilegiado, é um mistério. A empreitada é, portanto, uma aposta, que tem numa esfera pública leitora e engajada seu último fiador, e com quem deve compartilhar fracassos e sucessos.


Eduardo Lara e Ítalo Alves são editores da Revista Porto Alegre.