“Mais que um, menos que dois”: uma ética da predicação

Em “Mais que um, menos que dois”: uma ética da predicação, Rafael Saldanha busca uma nova forma de pensar a relação do sujeito com seus predicados, que não precisam ser entendidos somente como elementos que identificam e constituem o sujeito, mas como elementos que compõem com o sujeito.

(Astra – Bmarc – Unwin, London c. 1983-90, ‘dealers in military pyrotechnics’, Mark Lombardi, 2000, © Espólio de Mark Lombardi)

O que é um adjetivo? Substantivos nomeiam o mundo. Verbos ativam os nomes. Adjetivos vem de outro lugar. A palavra adjetivo (epitheton em Grego) é ela mesma um adjetivo que significa ‘posto em cima’, ‘adicionado’, ‘anexado’, ‘importado’, ‘estrangeiro’. Adjetivos parecem adições razoavelmente inocentes, mas olhe de novo. Esses pequenos mecanismos importados são responsáveis por colar tudo no mundo ao seu local de particularidade. Eles são os ferrolhos do ser (Anne Carson, Autobiografia de Vermelho).

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Pensemos em Pacote/Acácio/Rei do Teco, a personagem interpretada por Thomas Aquino em Bacurau. Trata-se de uma figura interessante da cidade, sobretudo por parecer sempre estar presa a um sentido de justiça e virtude pessoais (e nem sempre comunicáveis). Apesar do passado infame, para ele, de assassino de aluguel, com registros em vídeo dessas suas atividades, no momento em que o filme se passa, a personagem está engajada na proteção do pequeno povoado de Bacurau. O que mais me chamou atenção nessa personagem, porém, é a maneira como, em uma das suas primeiras aparições, ela sente uma vergonha imensa de ser chamada de Pacote ou ter seus assassinatos relembrados (mesmo que em tom elogioso). Ele se apressa em corrigir seus interlocutores, abafando o passado e lembrando que seu nome é Acácio. É por isso que gosto de pensar que, desde o início do filme, aparece como alguém que tem vergonha dos seus predicados, apesar de isso não afetar de maneira alguma uma certa firmeza de caráter, visível ao longo de todo o filme (um homem virtuoso, diriam alguns atenienses). Mas isso não é tudo, pois, se Acácio é uma personagem interessante, é porque ele mesmo dá uma segunda torção sobre essa vergonha. Quando, mais adiante no filme, dois sulistas aparecem em Bacurau e tentam intimidar os moradores da cidade, Acácio não hesita e imediatamente retoma para si o nome de Pacote. Não se trata de um simples “nome” assumido nesse instante (ou, se fosse uma pessoa “sofisticada”, diria, então, que nomes nunca são simplesmente isso), mas, na verdade, em algumas situações, nomes são simplesmente palavras, e é isso que dá a força para o momento em que nomes são mais que nomes. Quando Acácio aceita ser chamado de Pacote, ou melhor, quando se torna Pacote, o que vemos é uma mudança na postura, na disposição da própria personagem, como se a figura doce e carinhosa imediatamente se transformasse no assassino de aluguel. Essa transformação é exemplar, pois mostra que a personagem não é nem Acácio nem Pacote. A personagem não se orgulha dos seus predicados a ponto de se confundir com eles (ou seja, não há uma fusão entre sujeito e predicado), mas, apesar da vergonha, não deixa de apelar a eles quando a situação exige. Pacote/Acácio é, portanto, o caso exemplar da ética dos predicados que gostaria de esboçar.

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Se me demorei neste exemplo, foi para tornar mais claro o que pretendo desenvolver neste texto. Pacote/Acácio/Rei do Teco nos oferece uma possibilidade de pensar outra forma de se relacionar com predicados. Eles não precisam ser entendidos apenas como elementos que compõem o sujeito e o identificam, mas também como coisas que compõem com o sujeito.

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O principal campo de uma ética da predicação será então o cuidado com a maneira como nos relacionamos com nossos predicados. Pode ser que essa ética da predicação acabe se tornando na prática um elogio da antipredicação: o bem visado por essa ética não seria determinados predicados (determinadas virtudes), mas, sim, uma espécie de mudança na maneira como nos relacionamos com predicados em geral (a virtude estaria em como navegar entre os predicados). Se não for indelicado demais já anunciar o ponto de chegada, o que tenho em mente é a passagem de uma compreensão ontológica (natural, essencial) dos predicados para uma compreensão irônica (estratégica, contingente) em que poderemos, para repetir uma fórmula que ouvi de um amigo, ser mais que um, menos que dois.

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Essa forma de pôr as coisas traz uma série de questões familiares à filosofia. Porém esse tema tem sido tratado usualmente de um ponto de vista ontológico (ou epistêmico). Pergunta-se sobre a natureza das propriedades, sobre a diferença entre qualidades primárias ou secundárias; questiona-se a possibilidade de se conhecer um sujeito para além dos predicados que o determinam. Todas essas perguntas são importantes, mas o objetivo nesse texto é levar o problema para um outro enfoque.

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Evitando esses problemas graúdos, essas questões ontológicas, gostaria de focar os efeitos que se podem extrair de uma ética da predicação (uma que tem como virtude a antipredicação). Quero falar aqui do que significa falar em termos de uma ética das predicações e que tipos de vidas se constituem a partir da diferença entre uma relação ontológica e uma relação irônica com os predicados. O que tenho em mente quando falo de uma ética da predicação é uma ética que nos faça passar de uma compreensão ontológica (ou seja, sujeito e predicado estão fundidos) para uma compreensão irônica dos predicados (sujeitos e predicado se relacionam, sem estarem atados um ao outro eternamente). Mas qual seria o problema dessa “compreensão ontológica”?

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Por um lado, é óbvio o que predicados nos fornecem. Eles nos dão um ponto de apoio para lidar com as constantes demandas, mudanças e riscos que povoam o mundo. Se eu não posso controlar tudo o que me cerca, compreender-me a partir de um certo predicado me permite demarcar alguns pontos de diferenciação na realidade que tornam o mundo mais navegável. Um predicado (que, no campo político, geralmente é pensado em termos de “identidade”mas certamente não precisa ser compreendido apenas como tal) nos permite filtrar a realidade e reconfigurá-la a partir do que se aproxima ou do que diverge dele, do que o auxilia e do que o ameaça, e assim por diante. O predicado acaba funcionando muitas vezes, portanto, como uma espécie de perspectiva. Não é à toa também que inúmeras formas de socialização acontecem por meio de predicados em comum – eles permitem a criação de pontos de vista (ou gramáticas) compartilháveis. Se é o predicado que forma comunidades ou a comunidade que força a convergência entre predicados ou algum misto entre essas duas tendências, não nos interessa no momento. O que podemos observar é que a predicação permite que nos orientemos e possamos entender com quem podemos socializar e quem devemos evitar.

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O problema de se assumir que os predicados pertencem a um sujeito, ou seja, de tomá-los como propriedades, é que, se a adesão a certos predicados pode funcionar como um demarcador de diferenças relevante e vital em determinados momentos (sobretudo em situações políticas), pode também, no caso da fusão entre sujeito e predicado, acabar imobilizando o sujeito em questão.1 Nessas situações em que um predicado não basta a um sujeito, que parece exceder o predicado ao qual está atado, o sujeito em questão ou é forçado a se limitar para permanecer conectado a esse predicado, ou acaba sofrendo com o processo de desapego desse predicado (gerando, possivelmente, altas doses de ressentimento no processo – algo que costumamos ver nos inúmeros casos de pessoas que “já foram de esquerda” e que por certas divergências acabam preferindo negar aquele predicado por completo).

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Isso parece se tornar uma questão ainda maior hoje em dia, pois, diante da escala incomensurável de informações do mundo online, em que desorientação parece ter crescido a um ponto insuportável. Nessa situação, qualquer ponto de orientação possível já funciona como um salva-vidas. O excesso de informação (e de possibilidades que acompanham esse vasto mundo) acaba conduzindo as pessoas na direção oposta desse excesso: parecem cada vez mais procurar se relacionar por meio de predicados (simplificadores?), pois estes oferecem formas de filtrar o mundo de modo mais compreensível (com semelhanças e divergências mais facilmente identificáveis).

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Os efeitos iniciais férteis (sensação de comunhão, de um comum que une), porém, logo são confrontados com os problemas de se confundir sujeito com predicado. Pois, uma vez que a comunidade se constitui a partir desse predicado, ou seja, que o elemento unificador é um predicado, qualquer alteração nos sujeitos (ou seja, qualquer desejo que um sujeito possa ter de variar ou alterar seus predicados) é vista como uma ameaça ao elemento que faz a comunidade convergir. Trata-se de uma ameaça para o sujeito em questão, que corre o risco de não caber mais nessa comunidade e de ser expulso dela (apesar de ainda sentir laços sociais com os outros participantes – sensação que mostraria que a predicação nunca teria sido o único laço naquele espaço), mas também de uma ameaça para a própria comunidade, que perderia sua razão de ser à medida em que aqueles que a compõem se transformassem e aderissem a outros predicados, para além daqueles que consolidaram a união dessa comunidade.2Diante dessa possibilidade sempre presente, o que vemos são comunidades funcionando como se já se estruturassem com mecanismos de prevenção. Não é raro ver, em comunidades estruturadas a partir de predicados, um policiamento prévio de suas possibilidades e uma tentativa de tornar custosas possíveis transformações de um sujeito (ou seja, sua abertura para outros predicados).

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Outro problema é lidar com as inevitáveis contradições e tensões internas que precisamos suportar. Se é possível que, em momentos distintos, tenhamos predicados opostos (e abrir mão de um em nome do outro, a partir dessa postura que estamos descrevendo, já é difícil), a coisa se torna ainda mais complicada quando precisamos lidar com dois predicados que parecem se opor. Estar ligado a dois predicados opostos já é uma situação complicada por nos forçar a entender como conciliá-los, mas a coisa se torna ainda pior se entendemos que esses predicados estão ligados a nós de uma forma essencial. Aquilo que era um trabalho de navegação entre as contradições para aceitar que podemos ser mais que certos predicados, se torna um sofrimento que não podemos escapar. Nesse tipo de relação com os predicados, predicados contraditórios apenas ficariam se negando um ao outro sem que qualquer um dos dois conseguisse anular o outro por completo. E se, certamente, somos atravessados por contradições, não é por isso que precisamos nos condenar a elas dessa forma específica.

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Isso talvez pareça abstrato demais, mas podemos pensar na forma como modificamos nosso comportamento dependendo das pessoas com quem estamos interagindo. De uma forma bem boboca: talvez sejamos carinhosos com a família e secos no trabalho. Talvez façamos confidências de cada detalhe das nossas vidas para alguns amigos, mas, para outros, sejamos um mistério. Essas contradições não são trágicas, mas são coisas com que precisamos lidar e que nos forçam a equilibrar e manusear corretamente o que e quem somos, diante de quem, em que circunstâncias etc. São formas, portanto, de elaborar e tornar suportável (e até agradável?) a contradição entre predicados que nos atravessam.

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O problema aparece, ou melhor, se torna trágico, quando nos fundimos com nossos predicados. Fica difícil operar o malabarismo acima, pois estaríamos, a todo momento, fazendo um malabarismo com a nossa própria essência. A solução para esse problema (da negação da própria essência) pode acabar sendo a adesão a um predicado em detrimento de outro, recalcando os predicados insuportáveis do ponto de vista do predicado eleito. A adesão a um predicado acaba sendo uma espécie de aposta no valor de permanecer associado a ele, e o movimento de recalcar um predicado oposto que também nos atravessa (que “possuímos”) seria dobrar essa aposta, visto que não apenas se escolhe um predicado, mas faz-se isso por meio de um sacrifício de qualquer complexidade (contradição) que possamos vir a ter. É claro, como vimos, que isso não é feito a troco de nada. Como falamos, não são raras as vezes em que fazemos isso pela promessa de evitar certos sofrimentos (desorientação, mas também solidão), pela possibilidade de continuar se encontrando e socializando em comunidades constituídas a partir de determinados predicados.

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O efeito desse ponto de vista que concebe sujeito e predicados como fundidos é, portanto, uma dificuldade de aceitar tanto as transformações internas de um sujeito (na medida em que se depara com conflitos internos ou com consequências inevitáveis dos próprios predicados que aderiu inicialmente) como demandas externas de transformação. Se, em alguma medida, a fusão faz sentido e é, em certo sentido, confortável (por permitir navegar o mundo com mais orientação), seus efeitos negativos tornariam esse ponto de vista indesejável.

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E qual seria a outra possibilidade? Bem, eis que as coisas começam a ficar mais complicadas e mais difíceis de articular. Ainda assim, o que gostaria de propor como outro caminho é uma espécie de vida orientada a partir de uma virtude da antipredicação, ou seja, uma vida em que os predicados são aceitos como elementos contingentes com os quais compomos, que nos atravessam, mas que não nos definem de uma vez por todas.

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Não é por acaso que a primeira figura que me vem à mente, quando penso nesses termos, é Sócrates. Talvez ele tenha sido uma das figuras que exerceram de modo mais intenso a possibilidade da antipredicação. O que ele fazia em Atenas era atacar a possibilidade de demarcar de modo claro e para além de qualquer dúvida o que eram certas virtudes, ou seja, o que eram certas características que as pessoas atribuíam a si próprias ou a outros (como a piedade, a coragem, a temperança, a justiça etc). Seu trabalho consistia em problematizar as definições desses predicados, mostrando que, para realmente enxergá-los, era preciso suportar, na hora da sua definição, que eles eram constituídos por uma série de contradições (como por exemplo, no caso do diálogo Lísias, a dificuldade de desemaranhar, da ideia de amizade, o fato de que, ao mesmo tempo, faz parte do seu conceito que os amigos tenham semelhanças entre si, e o fato de que precisam ter divergências entre si). Não surpreende que, diante disso, Sócrates repetisse seu mantra, sei que nada sei. É claro que nesse caso falou-se das contradições internas aos próprios predicados, o que seria dar um passo além da nossa investigação. Ainda assim, a postura de Sócrates pode nos fornecer um caminho para entender o que seria essa ética da predicação que investigamos.

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Embora saiba que nada sabe – ou seja, que ele não é sábio – não irá deixar de agir como sábio (como, por exemplo, no Mênon, quando fornece uma definição possível de figura ou, no Fedro, quando elabora um discurso para rivalizar com o discurso de Lísias sobre o amor). O que aparece nessa ousadia socrática é, talvez, o que se costuma chamar de ironia socrática – a qual entendo de forma um pouco diferente. Se geralmente se pensa a ironia de Sócrates como o próprio procedimento de refutação das opiniões de seus interlocutores a partir das contradições internas desse discurso, pode-se dizer que a ironia é também (ou acima de tudo) uma adesão irônica aos predicados.

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O que significa isso? Bem, falo de adesão irônica como um modo de viver que opera a partir de uma distinção entre um sujeito e seus predicados. Trata-se de uma maneira de viver e de agir que não toma como dada a associação entre um determinado sujeito e suas propriedades, características e mesmo suas capacidades. O sujeito tomará seus predicados como elementos estratégicos, coisas que podem servir em determinadas situações, com relação a certos problemas, diante de certas pessoas, mas que não podem servir de auxílio ou consolo para toda e qualquer situação. Essa forma de pôr as coisas certamente convida o questionamento de certos filósofos, como já comentei acima. Mas deixemos isso para um outro momento. O que importa é que Sócrates não apenas não sabe nada como ele também, essencialmente, nada é. Mas a sua miséria, a sua pobreza, a sua falta de sabedoria, é justamente aquilo que o permite aspirar ao movimento.3

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Mas, assim como a relação essencialista com os predicados, a postura antipredicativa também terá perdas e ganhos. O principal custo dessa postura – e talvez o que torne tão difícil aderir a ela – são as dificuldades iniciais que aparecem no momento em que se procura operar uma separação entre sujeito e predicado. Aceitar que seus predicados não são nossos, que são estrangeiros, mas que nos ocupamos deles apenas ocasionalmente (quando eles colam) nos deixa inicialmente desconfortáveis e desorientados. É preciso admitir a conveniência (pois, sem isso, não entendemos o que torna tão atrativa essa posição) que é poder se compreender a partir de um predicado. Ao abrir mão da possibilidade de se compreender e se pensar a partir de um predicado, não se tem como se associar a uma comunidade que é organizada a partir de um determinado predicado (por exemplo, uma determinada característica, ou mesmo um determinado interesse) pois, desse ponto de vista, jamais se poderia ser definido por esse predicado. Há, portanto, dificuldades em estar em sintonia com esse tipo de espaço. Por outro lado, há o sofrimento natural, já discutido, que se tem na hora em que nos deparamos com contradições internas a nós mesmos (ou seja, quando nos vemos ligados a dois predicados contraditórios), o sofrimento de se ter de aceitar que se vai experimentar coisas contraditórias, e que isso não implica um dilaceramento de nós mesmos. Há também o sofrimento com a própria acomodação (com os malabarismos) das contradições, ainda mais porque não serão poucas as vezes em que – tentando equilibrar as coisas – acabaremos ativando certos predicados em situações erradas.

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Mas, se os custos iniciais parecem altos, essa via antipredicativa fornece ganhos maiores a longo prazo. Pois, se a incapacidade de se deter em um predicado pode ser inicialmente desorientadora, por outro lado, permite ao sujeito estar mais aberto aos inúmeros problemas com os quais pode se deparar (e que não pode prever). O sofrimento das contradições muitas vezes é amplificado por uma incapacidade de aceitar que um predicado nos defina absolutamente e de uma vez por todas. Abrir mão da fusão com os predicados permite amenizar esse sofrimento e liberar o sujeito para variar conforme as situações que apareçam.

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Mas é preciso esclarecer um ponto aqui, pois essa variação pode ser compreendida de duas formas. O sujeito que varia seus predicados e concilia predicações contraditórias pode ainda assim encarar a sua relação com os predicados de modo ontológico. No caso, em vez de se ver como um sujeito orientado por um predicado (ou um conjunto de predicados harmônicos) que dá a norma da coerência da sua vida, ele seria definido por inúmeros predicados que nem sempre se conciliam. Certamente esse sujeito parece mais complexo que o anterior por poder ser mais que um. Ainda assim, os predicados ainda são concebidos como pertencentes ao sujeito. O sujeito é mais que um, mas ainda é da ordem do numerável: é dois, três, quatro, tantos quanto forem os predicados. Ele ainda é compreendido em termos de unidade (ainda que essa unidade seja agora uma série de unidades). O problema disso é que, embora se varie de predicados, ainda se está atado a eles. O sofrimento com as contradições ainda existe, mas agora é um sofrimento explícito. Também se pode especular que essa compreensão seja tão insuportável que o sujeito se vê obrigado a elaborar um tipo de predicado que harmonize a sua pluralidade de predicados contraditórios para que a vida se torne mais suportável.

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A forma antipredicativa de compreender as variações dos predicados é o exato oposto: mais do que um, menos que dois. O que está em jogo é ser mais que um sem que a solução para essa liberdade seja a consolidação em uma nova unidade. A variação antipredicativa dos predicados seria aquela que se liberta de um predicado sem recair em outro. Para parafrasear o filósofo da ciência Georges Canguilhem na sua perversão do conatus espinosano: a saúde de um sujeito não estaria na sua capacidade de perseverar, mas de abandonar e alterar seus predicados. Aquele que se mantém num esforço antipredicativo estaria sempre preparado para as mudanças que inevitavelmente acontecerão – o que não significa que ele conseguirá lidar com tudo, mas que não sofrerá com essas mudanças por estar constrangido por algum predicado específico.

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Isso nos leva a um certo sentido de liberdade que essa virtude antipredicativa oferece. Na medida em que não nos prendemos a nenhum predicado (ou conjunto de predicados) específicos, a nossa própria vida se torna menos caricata. Se os predicados são interessantes – e relevantes para nós –, é na medida em que eles permitem uma certa orientação, que nos permitem filtrar o mundo. Descrevemos as coisas para que consigamos entendê-las, localizá-las, movemo-nos entre elas com mais facilidade. Se nos mantemos presos a certos pontos de vista, porém, essa facilidade acaba se convertendo em prisão. Acabamos nos enrijecendo e limitando nossa capacidade de experimentar e perceber o mundo (e a nós mesmos) de outras formas. Não é difícil pensar em pessoas dogmáticas, tão atadas a certos predicados, que não conseguem negociar suas posições firmes com problemas singulares que simplesmente não cabem nesses pontos de vista previamente fechados. Um exemplo que muitos conhecem (e que infelizmente nem sempre é apenas uma caricatura) é o marxista ortodoxo que enxerga tudo em termos de luta de classes, ponto de vista em que apenas um predicado – a classe trabalhadora – acaba sendo responsável por filtrar a realidade para esse sujeito.

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Mas, como o próprio Sócrates nos ensina, não se trata de escolher entre um e outro, mas de aceitar as coisas em sua natureza conflituosa. Tanto a nossa natureza, como já falamos, mas a própria realidade. Na medida em que a variação dos nossos predicados é possível (o que implica numa variação das perspectivas), a realidade passa a se tornar mais ambígua e complexa. Ainda que isso implique, em certo sentido, um maior emaranhamento, a nossa capacidade de navegar ganha em amplitude, pois, quando aderimos ironicamente aos predicados, adotamos mais perspectivas sobre o mundo e o vemos de mais formas, sem que qualquer ponto de vista específico o esgote absolutamente. O emaranhado de possibilidades que é o mundo não pode ser efetivamente eliminado, mas a variação de perspectivas permite tornar mais visíveis as diferenças que povoam a realidade. O que vemos em pessoas que pensam os predicados em termos ontológicos é o inverso: uma simplificação que, em nome da navegação, procura desemaranhar todos os fios de modo definitivo a partir de um ponto de vista final.

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Aceitar um caráter antipredicativo do sujeito nos permitiria compreender e habitar a realidade de modo mais complexo. O que não significa que isso seja fácil. A própria vida de Sócrates pode ser lida – ao menos o que chegou até nós – como uma vida dedicada a uma ética da antipredicação. E sabemos como essa vida terminou. Há dificuldades enormes envolvidas numa vida que aspira a encarar os predicados de modo irônico, dificuldades que muito provavelmente ajudam a explicar porque uma visão ontológica dos predicados cola com tanta facilidade. Inclusive, talvez seja impossível – e Sócrates pode ter sido a exceção que nos serve de modelo – viver plenamente esse tipo de vida. Ainda assim, aspirar a viver essa antipredicação é já o caminho para uma vida que, se não é mais fácil, ao menos nos dá mais ocasião para olhar e admirar a inesgotabilidade nossa e do mundo. Ao nos libertarmos da necessidade de sermos coerentes com nós mesmos, com os nossos predicados, ficamos mais livres para sermos mais que um, menos que dois.


Rafael Saldanha é coordenador do Instituto de Outros Estudos.

Notas

Notas
1Essa discussão não é sem eco com a leitura que Vladimir Safatle faz do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels ao apontar o equívoco da noção de propriedade que os autores do manifesto usam para descrever o proletário. Segundo Safatle, haveria uma dualidade no termo mobilizado, de modo que pode ser compreendido tanto como “bens materiais” como também como “atributos predicativos”. O que isso significa é que dizer que o proletariado é uma classe sem propriedades, implica também dizer que ela não tem nenhum atributo ou qualidade que delimita o que ela é (num sentido ontológico). É essa dualidade que permitiria, portanto, o proletariado ser a classe revolucionária (ou seja, a classe capaz de mudar as condições sociais do presente).
2Como não posso fugir do meu passado (e presente) espinosista, poderíamos dizer que a comunidade teria seu conatus ameaçado, isto é, sua capacidade de perseverar em si.
3Algo que aparece em diálogos que lidam com os problemas cruzados do amor, da sabedoria e da comunicação: O banquete e o Fedro.