O capital está morto

O regime político do nosso tempo não é mais o capitalismo, nem é mais o neoliberalismo. O que é então? O novo livro de McKenzie Wark busca responder essa pergunta: “A classe dominante de nosso tempo não mantém mais seu domínio por meio da propriedade dos meios de produção, como os capitalistas. Tampouco por meio da propriedade da terra, como os latifundiários. A classe dominante do nosso tempo possui e controla informação.”

Em Capital Is Dead: Is This Something Worse?, McKenzie Wark, professora na New School for Social Research e autora, entre outros, de A Hacker Manifesto (Harvard University Press, 2004) e Gam3r 7h3ory (Institute for the Future of the Book, 2006), parte das reflexões sobre o conceito de “vetor” desenvolvidas por Paul Virilio para descrever o papel assumido pela logística na coordenação dos processos de produção e circulação de bens. Nessa economia política da informação emergente, produção e consumo, toda atividade, são transformadas em dados computacionais para alguma empresa “cuja propriedade e controle pertencem a um novo tipo de classe dominante, a classe vetorialista”. Para Wark, a época da transmissão digital seria caracterizada pela assimetria do compartilhamento de informações e pela propriedade dos vetores ao longo dos quais a informação é agrupada –  que funcionariam como uma camada nova sobre formas mais antigas de exploração e dominação.

Capital Is Dead: Is This Something Worse? (Verso, no prelo) tem lançamento previsto para o dia 3 de outubro. O texto abaixo é uma tradução inédita em português de um trecho da Introdução (pp. 1–11). 

(© XuTeng Pan)

Qual deusa do punk rock você é? Eu sou a Kim Gordon. Ou era. Insatisfeita com essa resposta, fiz o teste on-line mais algumas vezes, até que deu a Patti Smith. Eu não sei que empresa criou esse teste, mas concordei em lhes dar acesso a um monte de informações em troca do privilégio fazê-lo, para aprender o que já sei, que sou mais um tipo Patti Smith que um tipo Kim Gordon.

O teste prendeu minha atenção por tempo suficiente para escapar do tédio e me deu algo para publicar nas mídias sociais, provavelmente para chamar a atenção de outras pessoas. Algumas pessoas ficam muito assustadas com algoritmos que parecem saber tanto sobre nós, embora eu sempre tenha pensado na privacidade como um conceito burguês.1 O que é distópico aqui pode ser menos o compartilhamento de informações do que a assimetria do compartilhamento.

Se você tem acesso gratuito à sua mídia, isso geralmente significa que você é o produto. Se a informação não está sendo vendida para você, é você quem está sendo vendido. Isso é algo que nós dos estudos de mídia temos ensinado aos nossos alunos e contamos ao público desde a era da TV e do rádio [broadcast era].2 Nessa época, era simples. Você ouvia rádio grátis ou assistia a televisão gratuita. No intervalo dos shows ou das músicas, havia publicidade. Você era o produto que a emissora estava vendendo para os anunciantes. Ou melhor, o que eles vendiam era sua atenção.3 Em um tempo em que a quantidade de informação aumentava e seu custo despencava, o que ainda era raro e valioso era (e é) sua atenção.

Na era da TV e do rádio, era difícil sequer saber de quem era a atenção que um programa de televisão conquistava ou se alguma propaganda específica funcionava. O guru da indústria publicitária David Ogilvy relatou que um de seus clientes alegava que metade de sua publicidade funcionava e metade falhava, ele apenas não sabia qual metade era qual.4 Uma boa dose de óleo de cobra ainda é necessária para convencer os compradores de publicidade de que os anunciantes têm meios mágicos de persuasão para galvanizar a atenção das pessoas, gravar uma marca na memória, mobilizar o desejo das pessoas de comprar um produto ou – o que é a mesma coisa – votar em um candidato.

O gênio maligno da mídia da era digital é que ela não apenas prende nossa atenção, mas a registra. Muito mais informação pode ser extraída sobre quem somos, do que gostamos e qual deusa do punk rock queremos ser. Muitos consumidores de mídia acabam ficando chocados com a quantidade de informações sobre si que estão fornecendo, e de graça.5 Eles foram enganados para tratar a mídia digital como um tipo de serviço público gratuito, uma ilusão que certas empresas estão muito felizes em perpetuar em seus usuários, mas certamente não em seus investidores. Para seus investidores, elas contam uma história diferente: que, ao oferecerem o que parece um serviço gratuito, elas podem extrair mais informações do que fornecem e monetizar essa assimetria de informação.6

As antigas indústrias da cultura deram um jeito de descobrir como mercantilizar o lazer.7 O movimento trabalhista organizado lutou arduamente por tempo livre para os trabalhadores. O capital foi forçado a se comprometer, mas encontrou uma maneira de mercantilizar tanto o tempo de lazer quanto o tempo de trabalho. As antigas indústrias da cultura tinham pelo menos que fabricar produtos que prendessem nossa atenção. Na era digital, as indústrias da cultura são superadas pelas indústrias abutres. Elas sequer se dão ao trabalho de fornecer entretenimento. Nós temos que nos entreter a nós mesmos, enquanto elas cobram o aluguel, que recolhem em todas as mídias sociais, públicas ou privadas, de trabalho ou lazer, e (se você mantiver seu FitBit ligado) até quando você dorme.8 É algo que dá um novo significado a um slogan inventado pelos surrealistas belgas: “Lembre-se, você está dormindo para o chefe!”9

Nem só o nosso trabalho, nem só o nosso lazer – outra coisa está sendo mercantilizada aqui: nossa sociabilidade, nossa vida comum e ordinária, o que podemos até chamar de nosso comunismo.10 Claro, essa não é uma versão utópica do comunismo. É uma muito banal e cotidiana, é o nosso amor por compartilhar nossos pensamentos e sentimentos uns com os outros e ter conexões com outras pessoas. Mas, ainda assim, a maioria das pessoas parece bastante alarmada com o fato de que o desejo delas de compartilhar e estar com outras pessoas, aproximar-se dos amigos, repassar fotos de gatos e, até mesmo, ter discussões acaloradas com estranhos está fazendo alguma uma outra pessoa ficar muito, muito rica.

Que as pessoas que usam a Internet sejam rastreadas, monitoradas e transformadas em informações não é nem a metade. Se você acha que sua mídia social está espionando você, imagine o tipo de informação que seu banco tem sobre você. Há toda uma economia política que funciona com assimetrias de informação como forma de controle.11 Isso pode significar até um novo tipo de relação de classe. Claro, ainda existe uma classe senhorial que é dona da terra sob nossos pés e uma classe capitalista que é dona das fábricas, mas talvez agora haja também outro tipo de classe dominante – que não possui nenhuma dessas coisas, mas possui o vetor ao longo do qual a informação é recolhida e utilizada.12

Hoje em dia, não apenas todos, mas tudo é rastreado, monitorado e transformado em informação. O sanduíche mineral no seu bolso, seu celular, está gerando informações sobre todos os seus movimentos.  

Hoje em dia, não apenas todos, mas tudo é rastreado, monitorado e transformado em informação. Se você faz uma encomenda on-line, pode acompanhar a entrega do pacote ao longo de seus estágios até chegar no seu destino. É uma versão de consumidor para acompanhar o movimento de tudo: animal, mineral e vegetal. Para esses propósitos, mesmo que você pense se enquadrar na categoria animal, você também está sendo rastreado como se fosse uma rocha. O sanduíche mineral no seu bolso, seu celular, está gerando informações sobre todos os seus movimentos.

A partir de toda essa informação sobre os hábitos e movimentos de pessoas e coisas, você pode gerar previsões sobre movimentos futuros. Bem, você não pode fazer isso: enquanto produz essa informação, tudo acaba sendo propriedade privada de alguma empresa de tecnologia da informação. Você produz as informações, mas, como um tipo de infoprole, não é dono das informações que produz nem dos meios para perceber seu valor. Você não pode se beneficiar do poder preditivo dessas informações, embora provavelmente sofra as desvantagens de quando essas previsões se mostrarem falsas.

Como esse conjunto vasto e confuso de informações que todos nós produzimos é privatizado, pode ser bem difícil saber o quão precisa ou útil essas informações são de fato.13 Bobagem entra = bobagem sai [Bullshit in = bullshit out]. Torna-se deprimentemente familiar descobrir que os algoritmos foram pré-programados com suposições racistas e sexistas sobre as pessoas que eles deveriam observar de forma neutra.14 Isso é irritante no âmbito da segmentação psicográfica de consumidores, mas uma coisa completamente diferente na forma de policiamento algorítmico.15 No entanto, essa é uma conversa que frequentemente acaba na exigência de um algoritmo mais justo, como se ainda pudesse haver um terceiro neutro, acima de nossas diferenças, para qual pedir em oração por não muito mais que o direito igual de ser explorado pelas assimetrias de informação. Esses aspectos discriminatórios da economia política da informação precisam ser criticados e combatidos, mas não vamos perder de vista o cenário mais amplo. Esse cenário mais amplo é a economia política da informação como um todo.

Antes de nos concentrarmos no que as corporações que possuem e controlam as informações estão fazendo conosco, façamos uma pausa para examinar as peculiaridades da informação em si.16 A informação é uma coisa bastante estranha. Ao contrário do entendimento popular, não há nada ideal ou imaterial nela.17 A informação só existe quando há um substrato material de matéria e energia para armazená-la, transmiti-la e processá-la. A informação é parte de um mundo material. Mas é uma parte estranha dele. A palavra informação não é nem um pouco nova, mas a ciência da informação é muito nova; é uma criação do pós-guerra.18

A informação é agora uma força organizadora tão difusa e universal que se infiltrou em nossa visão de mundo.19 O que nós entendemos como “tecnologia” nos dias de hoje muitas vezes significa tecnologias que instrumentalizam a informação. São tipos específicos de aparatos que coletam, classificam, gerenciam e processam informações de modo que elas possam ser utilizadas para controlar outras coisas no mundo. A tecnologia da informação é uma espécie de metatecnologia, projetada para observar, medir, registrar, controlar e prever o que coisas, pessoas ou outras informações podem ou devem fazer.

Essas tecnologias tornaram a informação muito, muito barata e muito, muito abundante. Eles deram origem a um tipo estranho de economia política, baseado não apenas na escassez de coisas, mas também num excesso de informação. Isso gerou tipos bastante novos de problemas para aqueles que tinham (ou aspiravam a ter) poder: como manter formas de desigualdade de classes, opressão, dominação e exploração baseadas em algo que, em princípio, é agora ridiculamente abundante.

Minha proposição neste livro é que resolver essa contradição deu origem a um novo modo de produção. Ele não é mais o capitalismo; é algo pior. A classe dominante de nosso tempo não mantém mais seu domínio por meio da propriedade dos meios de produção, como os capitalistas. Tampouco por meio da propriedade da terra, como os latifundiários. A classe dominante do nosso tempo possui e controla informação.

Resolver essa contradição deu origem a um novo modo de produção. Ele não é mais o capitalismo; é algo pior.

Em outras abordagens, a estranheza desse estado de coisas é disfarçada, considerada simplesmente uma variação de ideias tradicionais sobre capital.20 Apenas adiciona-se um modificador: o capitalismo de vigilância, o capitalismo de plataforma, o capitalismo neoliberal, o capitalismo pós-fordista e assim por diante.21 A essência permanece a mesma, só mudam as aparências. Mas, para sustentar esse argumento, certamente é necessário pelo menos cogitar o experimento de pensamento de que isso não é mais capitalismo. Curiosamente, a tentativa de desenvolver esse experimento mental encontra forte resistência. Até mesmo a teoria crítica parece muito ligada emocionalmente à noção de que o capitalismo ainda continua existindo e existindo…

Contra essa tendência, Paul Mason arriscou usar o conceito de pós-capitalismo, que tem o mérito de aumentar o nível da discussão, mesmo que não ofereça uma linguagem para esse modo de produção emergente. Como diz Mason, “a principal contradição hoje é entre a possibilidade de bens e informações livres e abundantes e um sistema de monopólios, bancos e governos que tente manter as coisas privadas, escassas e comerciais”.22 Por meio de uma nova leitura da economia política marxista, Mason oferece uma maneira de pensar como o capitalismo pode ter sofrido mutações que desafiam ideias anteriores sobre sua forma e sua trajetória. É uma leitura estimulante e implica dois outros projetos: a criação de uma linguagem renovada para descrever a situação atual e a identificação de o que, na linguagem tradicional sobre o capitalismo, impede o avanço em pensamento e ação.

Que isso não seja mais capitalismo, mas algo pior, é uma possibilidade que tenho experimentado em todo tipo de público, tanto ativista quanto acadêmico, já há alguns anos. Para alguns, isso combina com as suas experiências e parece óbvio, mas isso também encontra resistência bem forte. Há uma necessidade curiosa de encontrar, de antemão, motivos  para não pensar sobre isso. Aqui pode ser o lugar para eu jogar bingo pós-capitalista e listar as reações mais comuns até mesmo à possibilidade de pensar que isso não seja mais capitalismo.

Disseram-me que estou falando apenas do capitalismo financeiro e que isso não é novidade. (Desculpe, mas a informação tem percorrido todo o ciclo de produção e reprodução de valor). Disseram-me que estou falando apenas de circulação. (Veja a resposta anterior). Disseram-me que informação é apenas ideias, o que é idealismo. Materialismo tem a ver com matéria. (Até mesmo a ciência de meados do século XX tinha um “materialismo” mais sofisticado que isso).

Disseram-me que muitas das características do presente ainda se parecem com o capitalismo da Era do Vapor. (Sim, você pode fazer tudo parecer igual, se quiser, mas vamos tentar nos concentrar também no que não é mais igual e explicar os dois). Disseram-me que, uma vez que o telégrafo já existia nos tempos de Marx, a informação não é tão nova. (Sempre há precedentes históricos, histórias de longa duração). Disseram-me que falar de informação é a linguagem do Vale do Silício. (Por que deixá-los monopolizar também o pensamento sobre a informação, além da própria informação?)

Disseram-me (geralmente quem o faz é algum professor com estabilidade profissional) que Marx já explicou tudo em alguma nota de rodapé obscura no Volume 2 de O Capital e que eu deveria ler a longa exegese do ilustre professor. (Marx não era professor, não tinha estabilidade e tentava explicar tanto a continuidade quanto a mudança em seu próprio tempo histórico). Ou me disseram, como se eu não soubesse, que a exploração do trabalho ainda existe. (Nisso podemos concordar, mas, igualmente existe a extração de aluguel de arrendatários rurais. Nem mesmo a escravidão está extinta. Modos de produção coexistem e interagem. Só estou perguntando se um modo de produção adicional está surgindo, não se ele descreve a totalidade).

Outra objeção é a de que estou falando apenas do mundo superdesenvolvido, da Europa, do Japão e dos Estados Unidos. (A informação é agora o meio de controlar as cadeias globais de suprimentos que atingem profundamente o chamado mundo subdesenvolvido).23 Ou que estou falando apenas do setor “tecnológico”, que não é o mesmo que a economia “real”. (Essa parece ser uma objeção cada vez mais fraca, dado o tamanho das principais empresas de tecnologia, medido pela capitalização de mercado).

Não são apenas empresas de tecnologia, no entanto. Como exemplo, vamos dar uma olhada numa empresa que dificilmente é considerada uma maravilha do setor de tecnologia, mas que, por acaso, é o maior empregador privado dos Estados Unidos: o Walmart.24 É uma empresa que a maioria consideraria uma varejista. O Walmart tornou-se famoso tanto por vender produtos de consumo muito baratos quanto pela implacável exploração de seus trabalhadores e fornecedores. Em um exame mais detido, trata-se sobretudo de uma empresa de logística, que também conseguiu utilizar informações para organizar os fluxos de bens e mão de obra por meio de seu sistema de distribuição. Foi uma das primeiras varejistas a adotar a informatização. Comprou até seu próprio satélite para gerenciar seus dados de maneira mais eficiente. No começo, o fundador Sam Walton encontrava possíveis locais ​​para a instalação de lojas sobrevoando-os com seu próprio avião particular, mas isso logo deu lugar a uma abordagem “baseada em dados”.25

A infraestrutura do Walmart tem uma forma de núcleos e raios [hub and spoke], com lojas agrupadas em torno de centros de distribuição. O que é menos conhecido é que ela tem quase tantos centros de dados quanto centros de distribuição físicos, e que esses são praticamente do mesmo tamanho. As peças que o consumidor vê – as lojas enormes, os inúmeros ​​caminhões na estrada – são uma expressão física de um sistema logístico computadorizado que determina onde elas estarão e o que farão. É necessária muita infraestrutura para organizar as informações, assim como para organizar a distribuição das coisas físicas que acabam nas prateleiras. E com boas razões: esses centros de dados precisam analisar todos os produtos e o trabalho em movimento e prever, a cada momento, de todas as combinações possíveis, qual disposição de bens e trabalho deve vir depois.

Quem faz compras lá gera uma boa quantidade de informações que impulsionam a empresa. É uma troca assimétrica. Você fica com um pacote barato de doze rolos de papel higiênico. O Walmart fica com a inclusão de informações sobre suas ações em um modelo preditivo que orienta suas decisões de negócio. Aqueles que trabalham para o Walmart são mão de obra explorada. O mesmo acontece ao longo das cadeias de suprimento, até as fábricas e fazendas. E além disso tem mais uma coisa: a extração não apenas do trabalho físico dos corpos dos trabalhadores, mas de informações dos compradores que o Walmart sequer remunera. É esse processo adicional – esse processo de extração de informações – que me interessa. Acaba não sendo algo exclusivo da “tecnologia”, mas sim um “modelo de negócios” cada vez mais comum e ainda não muito bem descrito pelos modelos clássicos do capitalismo. Talvez haja novas formas de exploração, desigualdade e assimetria como uma camada sobre as formas mais antigas com as quais estamos acostumados.

Talvez haja novas formas de exploração, desigualdade e assimetria como uma camada sobre as formas mais antigas com as quais estamos acostumados.

Vamos dar uma olhada no segundo maior empregador privado nos Estados Unidos: o Amazon. Ele vende um produto chamado Echo, que você coloca em algum lugar da sua casa em que ele possa espiar você com seus sete microfones direcionais. Algumas pessoas até desconfiam disso, mas, de alguma forma, a marca Amazon convence muitos de que não há problemas. Echo conecta você a Alexa, uma inteligência artificial cujo objetivo é aprender quais são seus hábitos, necessidades e desejos – e atendê-los. Com o tempo, ela fica melhor em fornecer informações e produtos, e inclui o que aprende sobre você na matriz do que ela já sabe sobre todo mundo. Seu trabalho, para o qual você não está sendo pago, é treinar uma máquina para que ela saiba o que é o “humano” quando visto inteiramente da perspectiva do consumo.26

Echo e Alexa também escondem de você tudo que medeia a sua enunciação de um desejo e a satisfação dele pela Amazon. O Echo é a camada superior do que Benjamin Bratton chama a pilha [the stack].27 Seu desejo precisa ser decodificado em um formato que uma máquina possa entender; esse é o trabalho da camada de interface.28 A interface também posiciona você em relação a ela e ao restante da pilha, como um tipo particular de sujeito: você é um usuário. Digamos que você seja um usuário que quer um livro. Você diz: “Alexa, mande-me uma cópia de O Capital de Karl Marx”. Uma vez que você confirma que é isso mesmo que você quer, essa informação passará como se fosse um vetor, um tipo particular de linha, através de toda uma série de camadas da infraestrutura da pilha, que entregará este produto para você, ou imediatamente (se for um e-book) ou em um dia ou dois (se for um objeto físico). Cada um desses desejos expressos torna-se um vetor único através de um espaço em camadas que pode satisfazer um número quase infinito de desejos, desde que todos tenham a forma de um usuário pedindo a uma interface que satisfaça uma demanda com uma mercadoria. Ele não te deixa querer ou ser muito mais do que isso.29

Seu desejo se torna um vetor que passará por muitas outras camadas da pilha. Bratton chama essas camadas de endereço, cidade, nuvem terra. A camada endereço sabe onde está você e onde está o livro que você quer, e pode calcular o vetor de retorno ideal para juntar os dois e satisfazer esse desejo. A camada cidade é onde reside a parte física da infraestrutura. Existe um depósito em algum lugar.30 Existe uma fazenda de servidores em algum lugar; existem escritórios da Amazon que projetam, gerenciam e vendem tudo isso – em algum lugar.

A camada nuvem conecta todos essas unidades, bem como muitos outras, e executa as operações nas informações reunidas por todos eles, não apenas para atender a pedidos e gerenciar todos os vetores, mas para aprender com o conjunto de todas essas ações e prever de que outra forma extrair informações deles.31 A camada terra é aquela a partir da qual os recursos e a energia para produzir e administrar todo este vasto edifício para a mercadoria digitalizada são extraídos.32 Esses recursos abastecem as unidades de produção que produzirão o livro, a camiseta, o brinquedo sexual ou qualquer outra coisa que você tiver comprado.

Essas unidades de produção também podem estar em qualquer lugar. Uma logística sofisticada rastreia e gerencia os fluxos de energia, mão de obra, recursos e produtos acabados ao longo do caminho.33 As unidades costumam estar onde a mão de obra é barata, explorável, enclausurada por fronteiras e nas quais há pouca regulamentação ambiental, mas há uma infraestrutura funcional de transporte e remessa para transferir recursos e mão de obra para a fábrica e produtos para alguma nação de comunidades muradas na parte superdesenvolvida do mundo na qual as pessoas podem encomendar livros, telefones ou Echos da Amazon. As cargas de contêineres desses produtos permanecem, provavelmente não por muito tempo, em um depósito onde trabalhadores conhecidos como coletores [pickers] se apressam para atender aos pedidos sem parar sequer para ir ao banheiro, pois todos os seus movimentos são monitorados e medidos em tempo real.

Certamente, muito do que acabou de acontecer aqui poderia ser chamado de capitalismo. A mão de obra foi encurralado em fábricas em que se trabalha longas horas para produzir coisas. Outra parte da mão de obra dirige caminhões ou fica em call centers, atendendo chamadas de usuários furiosos pois não receberam suas coisas. Mas talvez também haja algo a mais aqui. Não apenas a exploração do trabalho por meio da propriedade e do controle das forças de produção, mas também a extração do que você poderia chamar de informação excedente [surplus information], a partir de trabalhadores e consumidores individuais, a fim de construir modelos preditivos que subordinem toda atividade à mesma economia política da informação. Um modo de produção em que você não é nada além de um usuário, e tudo que você faz dentro do alcance auditivo do Echo, todo movimento que você faz com seu celular, tudo que você faz no seu laptop, tudo que é gravado sobre você ou sua vida, é capturado por um vetor e transformado em dados computacionais para descobrir como melhor usá-lo para a maior glória da Amazon, do Google, da Apple ou de alguma outra empresa, cuja propriedade e controle pertence a um novo tipo de classe dominante, a classe vetorialista. Ao vetor, os espólios.

Tradução: Eduardo Garcia Lara


McKenzie Wark é professora na New School for Social Research.

Notas   [ + ]

1.Bernard Harcourt, Exposed: Desire and Disobedience in the Digital Age (Harvard University Press, 2015).
2.Dallas Smythe, “Communications: Blind Spot of Western Marxism,” Canadian Journal of Political and Social Theory 1: 3, 1977, 1–28; Sut Jhally, The Codes of Advertising, New York: Routledge, 1990.
3.Yves Citton, The Ecology of Attention (Polity Press, 2017).
4.David Ogilvy, Confessions of an Advertising Man (Southbank, 2012).
5.Há estratégias para minimizar a utilidade dessa informação: Finn Brunton e Helen Nissenbaum, eds., Obfuscation: A User’s Guide for Privacy and Protest  (MIT Press, 2015).
6.Siva Vaidhayanathan, Antisocial Media (Oxford University Press, 2018); Siva Vaidhayanathan, The Googlification of Everything (University of California Press, 2012).
7.Theodor Adorno, The Culture Industry: Selected Essays on Mass Culture (Routledge, 2001).
8.Jonathan Crary, 24/7: Later Capitalism and the Ends of Sleep (Verso, 2014).
9.Xavier Cannone, Surrealism in Belgium: 1924–2004 (Thames & Hudson, 2007).
10.David Graeber, Debt: The First 5,000 Years (Melville House, 2014).
11.Seb Franklin, Control: Digitality as Cultural Logic (MIT Press, 2015).
12.Eu adaptei o conceito de vetor de Paul Virilio, Aesthetics of Disappearance (Semiotext(e), 2009).
13.Cathy O’Neil, Weapons of Math Destruction (Penguin Books, 2017); Virginia Eubanks, Automating Inequality (St. Martins Press, 2018); Frank Pasquale, The Black Box Society (Harvard University Press, 2016).
14.Safiya Umoja Noble, Algorithms of Oppression (New York University Press, 2018).
15.Jackie Wang, Carceral Capitalism (Semiotext(e), 2018).
16.Paul Dourish, The Stuff of Bits: An Essay on the Materialities of Information (MIT Press, 2017).
17.Andre Gorz, The Immaterial (Seagull Books, 2010), forneceu algumas ideias inovadoras, mas, em minha opinião, fica preso nessa imagem das forças emergentes da produção.
18.Para um manual sobre a gênese histórica da informação, ver James Gleick, The Information (Vintage, 2012).
19.Alguns até argumentam que o próprio universo é uma simulação de computador: Nick Bostrom, “Are We Living in a Computer Simulation?” Philosophical Quarterly 53: 211, 2003, 243-55.
20.Eu vejo este livro como um diálogo amigável com Tiziana Terranova, Network Culture: Politics for the Information Age (Pluto Press, 2004); Matteo Pasquinelli, Animal Spirits: A Bestiary of the Commons (Institute for Network Cultures, 2009); Christian Fuchs, Digital Labour and Karl Marx (Routledge, 2014); Nick Dyer-Witheford, Cyber-Proletariat (Pluto Press, 2015); Nick Srnicek e Alex Williams, Inventing the Future (Verso, 2016); Jonathan Beller, The Message is Murder: Substrates of Computational Capital (Pluto Press, 2017).
21.Shoshana Zuboff, The Age of Surveillance Capitalism (Public Affairs, 2018); Nick Srnicek, Platform Capitalism (UK: Polity, 2016); David Kotz, The Rise and Fall of Neoliberal Capitalism (Harvard University Press, 2017); Alain Lipietz, Towards a New Economic Order: Postfordism, Ecology and Democracy (Oxford University Press, 1992).
22.Paul Mason, Postcapitalism: A Guide to Our Future (Allen Lane, 2015), xix.
23.Ned Rossiter, Software Infrastructure, Labor: A Media Theory of Logistical Nightmares (Routledge, 2016).
24.Fortune 500, 2017. Ver Fredric Jameson, Valences of the Dialectic (Verso, 2010), p.  420ss, em que ele propõe a logística do Walmart como um modelo dialeticamente reversível de socialismo.
25.Jesse LeCavalier, The Rule of Logistics (University of Minnesota Press, 2016).
26.Kate Crawford e Vladan Joler, “Anatomy of the AI System,” AI Now Institute, September 7, 2018, em anatomyof.ai. É importante notar aqui que o que aparece ser automação frequentemente esconde uma grande quantidade de trabalho. Ver Astra Taylor, ‘The Automation Charade,’ Logic: A Magazine About Technology, No. 5, 2018. Ela denomina isso falsotomação[fauxtomation].
27.Benjamin Bratton, The Stack: On Software and Sovereignty (MIT Press, 2016).
28.Alexander Galloway, The Interface Effect (Polity, 2011).
29.Wendy Hui Kyong Chun, Updating to Remain the Same: Habitual New Media (MIT Press, 2017).
30.Phil Neel, Hinterland: America’s New Landscape of Class and Conflict (Reaktion Books, 2018).
31.Vincent Mosco, To the Cloud: Big Data in a Turbulent World (Routledge, 2014).
32.Brett Neilson e Sandro Mezzada, Border as Method, or, the Multiplication of Labor (Duke University Press, 2013).
33.Deborah Cowan, The Deadly Life of Logistics: Mapping Violence in Global Trade (University of Minnesota Press, 2014).