O jornalista que cobre o passado

Juremir Machado da Silva discute as fronteiras entre narrativa histórica e jornalística numa perspectiva transdisciplinar. O que buscam jornalista e historiador? Qual é a porosidade do limite entre os campos? Seria o historiador um jornalista que cobre o passado?

Há mais de uma maneira de definir o papel do historiador. Por que não apostar num conceito inusitado: o historiador é um jornalista que cobre o passado? O que buscam jornalista e historiador? A verdade sobre um fato ou acontecimento. Buscar a verdade não quer dizer alcançá-la integralmente ou não problematizar a sua definição. Tampouco implica crer que o documento ou a fonte possuem uma verdade inquestionável. Fontes, em jornalismo ou em História, podem ser “interessantes”, mas interessadas. Sem neutralidade. Há diferenças de metodologia entre jornalismo e História? Ambos investigam, reconstituem, consultam fontes e documentos. O historiador deve abrigar sua narrativa sob o guarda-chuva de uma teoria? Essa é uma teoria. Em tempos de crise dos metarrelatos ou narrativas legitimadoras1, pilares de verdades globalizantes ou mitológicas, ainda é possível apostar em teorias unificadoras?

O sociólogo francês Pierre Bourdieu definiu campo:

Um campo é um espaço social estruturado, um campo de forças – há dominantes e dominados, há relações constantes, permanentes, de desigualdade, que se exercem no interior desse espaço – que é também um campo de lutas para transformar ou conservar esse campo de forças. Cada um, no interior desse universo, empenha em sua concorrência com os outros a força (relativa) que detém e que define sua posição no campo e, em consequência, suas estratégias.2

Como se entra num campo? Há quem entre em História simplesmente pela pesquisa e publicação de livros sobre acontecimentos históricos. Um caminho mais formal é o da obtenção de um diploma de curso superior, bacharelado ou licenciatura em História. Pierre Bourdieu refere-se a um “direito de entrada” em cada campo, um valor de ingresso “do ponto de vista da definição interna da profissão”.3

Jornalistas que escrevem livros de História sem formação acadêmica baixariam o preço de entrada no campo, usando uma entrada lateral capaz de dispensá-los do aprendizado das regras, das teorias, da metodologia, dos rituais de passagem e dos certificados emitidos pelas estruturas de dominação e reprodução dos valores do campo.

Bourdieu defendia a “manutenção e mesmo a elevação do direito de entrada nos campos de produção”.4 Durante muito tempo, para entrar formalmente num campo como o da História, exigia-se o diploma de graduação na área. Depois, o mestrado. Por fim, o doutorado. Se o doutoramento for em outra área das Ciências Humanas, não vale? Há rebaixamento do valor de entrada? Ou qualquer rejeição nesse sentido explicita a luta entre dominantes e dominados dentro do campo, que é sempre espaço de conflito, de disputa e de poder? 

A guerra entre jornalistas que escrevem História e historiadores acadêmicos não tem quartel. Os jornalistas historiadores podem ressentir-se da falta de reconhecimento no campo oficialmente constituído mesmo quando cumprem as regras do jogo e mergulham em arquivos atrás de documentos inéditos e de dados novos. Os historiadores de ofício podem queixar-se de que os concorrentes se apropriam dos seus temas obtendo mais repercussão graças ao “capital” midiático de que dispõem, o que, inclusive, dá acesso a grandes editoras, sem contar que podem conseguir comentários favoráveis nos veículos de comunicação, amplos espaços de divulgação e vendas. 

Vista de Porto Alegre na década de 1900. Fotografia de Virgilio Calegari (© Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo / Cores da Memória)

O grande problema estaria na forma de pesquisar ou de narrar? Faltaria ao jornalista historiador o rigor dito científico? Faltaria ao historiador de ofício a clareza narrativa do jornalista? Paul Veyne problematizou do seu jeito o trabalho de historiador:

O que é a história? A julgar pelo que ouvimos à nossa volta, é indispensável que a questão seja recolocada. “A história, em nosso século, compreendeu que a sua verdadeira tarefa era a de explicar”; “um determinado fenômeno não pode ser explicado só pela sociologia: o recurso a uma interpretação histórica não o tornaria mais inteligível?”; “será a história uma ciência? Debate vão! Não seria a colaboração de todos os pesquisadores desejável e a única fecunda?”; “não deveria o historiador dedicar-se a construir teorias?”- Não. Não, semelhante história não é a que fazem os historiadores: quando muito, a que pensam fazer ou a que foram persuadidos a lamentarem-se por não fazer. Não, não é um debate vão o de se saber se a história é uma ciência, pois “ciência” não é uma palavra sagrada, mas um termo preciso, e a experiência mostra que a indiferença pela discussão sobre termos é, frequentemente, acompanhada por uma confusão de ideias sobre a própria coisa. Não, a história não tem método: tentem pedir que lhes demonstrem seu método. Não, ela não explica coisa alguma, se é que a palavra explicar tem sentido; quanto ao que chama suas teorias, será preciso examiná-las de perto. Precisemos bem.5

Por que, numa perspectiva herética, não enxergar a investigação e a narrativa em História como grandes reportagens intelectuais de aprofundamento, com a permissão para a redundância, pois o conceito de reportagem tem como fundamento justamente o exame em profundidade? 

É ainda Pierre Bourdieu quem se debruça sobre o ponto central dos conflitos frequentes dentro de campos de produção:

Agora eu desejaria dizer algumas palavras sobre a questão das relações entre o esoterismo e o elitismo. É um problema no qual se debateram, e por vezes se enredaram, todos os pensadores, desde o século XIX. Por exemplo, Mallarmé, que é o próprio símbolo do escritor esotérico, puro, escrevendo para algumas pessoas em uma linguagem ininteligível para a maioria, preocupou-se toda sua vida em levar a todos o que conquistara para seu trabalho de poeta.6

Existe algo na “natureza” da narrativa histórica que exija o hermetismo, o “esoterismo”, para usar o termo de Bourdieu, como condição de aprofundamento? Ou se trata apenas de uma forma de manter o poder e a dominação dentro do campo? Em princípio, toda narrativa histórica pode ser pública, ou seja, capaz de ser clara para vastos públicos, certamente não para todo mundo, mas para pessoas com certa cultura e interesse pelos assuntos abordados. O “elitismo” pode ser apenas uma estratégia – consciente ou inconsciente – para conservar a posição dentro de um campo de forças. Evidentemente que não se pode correr o risco de simplificação ou de rebaixamento temáticos aos interesses folhetinescos de uma plateia acostumada ao espetacular. Imaginar, em contrapartida, que um público mais amplo não pode compreender as matérias tratadas por especialistas implica algum grau de autossuficiência e talvez de arrogância. O público não entende por não estar capacidade ou por não encontrar uma exposição clara? 


Max Weber, num dos seus textos mais conhecidos, tratou da ciência como vocação (profissão) e enfrentou um dilema que sempre retorna. Nesse sentido, Veyne parece próximo do pensamento do sociólogo alemão. Há sempre algo de não-científico na cientificidade:

Instalou-se, em nossos dias, o hábito de falar insistentemente numa ‘ciência sem pressupostos’. Existe uma tal ciência? Tudo depende do que se entenda pelas palavras empregadas. Todo trabalho científico pressupõe sempre a validade das regras da lógica e da metodologia, que constituem os fundamentos gerais de nossa orientação no mundo. Quanto à questão que nos preocupa, esses pressupostos são o que há de menos problemático. A ciência pressupõe, ainda, que o resultado a que o trabalho científico leva seja importante em si, isto é, mereça ser conhecido. Ora, é nesse ponto, manifestamente, que se reúnem todos os nossos problemas, pois que esse pressuposto escapa a qualquer demonstração por meios científicos. Não é possível interpretar o sentido último desse pressuposto – impõe-se, simplesmente, aceitá-lo ou recusá-lo, conforme as tomadas de posição pessoais, definitivas, face à vida.7

O historiador interpreta, escolhe, hierarquiza, organiza. Assim como o jornalista fixa a sua pauta, apura, redige e edita. Não o faz em estado de neutralidade. Pode, contudo, abster-se de julgamentos. Weber defendia a “neutralidade axiológica”. Uma coisa, porém, é não tentar dizer ao mundo como ele deve ser, outra é não perceber como ele é. Nem o historiador nem o jornalista estão autorizados a cometer pecado de anacronismo. Tampouco devem eximir-se ou esconder atrás do espírito de cada época. A quem diz que não se pode condenar os donos de escravos, pois seria julgá-los com os valores de hoje, sempre se pode alegar que milhões de pessoas sabiam da infâmia da escravidão: os escravos. Alguns deles, tornados livres, tiveram escravos? A perversão do sistema consiste em alcançar certo grau de naturalização da sua perversidade. Se um homem percebe a atrocidade do seu tempo, não há mais como se sustentar que era impossível criticá-lo em sua época.

Ainda vale a pena brigar por uma posição disciplinar? A quem servem as cercas colocadas em torno dos campos de conhecimento? As lógicas de carreira, explicadas pela sociologia da ciência, pesam mais nas escolhas disciplinares do que as exigências epistemológicas? Perguntar pode ser uma forma diplomática de responder, sem as asperezas da ênfase, das posturas assertivas e das certezas geladas. O tempo dos campos enclausurados, contudo, vem desaparecendo no horizonte. A complexidade dos acontecimentos a “cobrir” exige dos jornalistas, dos historiadores, dos cientistas sociais, uma panóplia de ferramentas, um cruzamento de saberes, uma abertura de espírito.

Edgar Morin, um dos mais persistentes defensores de uma teoria da complexidade, defende uma pesquisa transdisciplinar, que não se contenta em ser uma justaposição de disciplinas isoladas ou uma soma de perspectivas autônomas, mas se apresenta como uma fusão capaz de produzir algo maior do que a adição das suas partes: 

Quanto mais a diversidade humana é visível, mais a unidade humana torna-se, hoje, invisível aos espíritos que só conhecem fracionando, separando, catalogando, compartimentando. Ou, então, o que aparece aos espíritos abstratos é uma unidade abstrata que oculta as diferenças. Precisamos conceber a unidade múltipla, unitas multiplex. Assim, a diversidade está inscrita numa unidade da vida. Esta, a partir de um primeiro ser celular, diversificou-se fervilhando pelos reinos vegetal e animal. Deve-se essa diversidade, quanto aos animais nascidos da reprodução sexuada, à singularidade oriunda da combinação de dois patrimônios genéticos, mas também ao desenvolvimento próprio e às experiências particulares vividas por cada um até a idade adulta; assim, entre os animais domesticados, as violências sofridas ou as carícias recebidas, determinam caracteres opostos.8

Separar demais pode levar ao reducionismo. Pensar complexamente implica examinar os múltiplos lados de uma questão: ponto e contraponto. Se, por um lado, o acesso à História pode ser dificultado pelos que controlam os critérios de entrada no campo em nome da dominação que exercem em benefício próprio, por outro lado é compreensível que os integrantes do campo, aqueles que nele entraram formalmente pela via das formações acadêmicos e dos diplomas, sintam-se usurpados quando seus temas e descobertas são apropriados por oriundos de outros campos, como o jornalismo, sem a devida preparação ou conhecimento, alcançando resultados, como venda de livros, repercussão na mídia, visibilidade e prêmios, mais importantes. Às vezes, esses “estranhos” valem-se de procedimentos, como entrevistas com historiadores de ofício, por meio das quais, ainda que reconheçam e citem as fontes, saqueiam o patrimônio de dados alheio, tomando atalhos que evitam a dureza das fastidiosas apurações em arquivos.


O historiador, jornalista que cobre o passado, lida com indícios, fragmentos e fontes. As suas grandes reportagens procuram reconstituir o que já se foi deixando rastros, impressões e pistas.

Há casos, cujos nomes não vale a pena retomar para não recriar polêmicas estéreis, de “historiadores de ocasião” que anunciam como descobertas, em manchetes bombásticas repetidas em notas plantadas em colunas de amigos na grande mídia, aquilo que, sem repercussão ou com pouco eco, já se encontrava desvendado em pesquisas e obras sérias. Um historiador passa anos pesquisando, publica uma obra densa, sonha com um resultado consistente, a consagração entre os pares e mesmo junto a um público mais amplo. Nada ou pouco acontece. Mais tarde, um “historiador de ocasião” retoma o tema, reacomoda os dados, dá nova roupagem estilística ao material, que publica por uma grande editora nacional, com distribuição e espaço na mídia. A obra estoura. O autor consagra-se, vira referência e é citado ao historiador de ofício como leitura incontornável. Como não compreender a sensação de derrota? O sucesso de público e venda acaba por refletir no meio acadêmico.

Historiador e jornalista buscam a verdade sabendo que se movem em terreno pantanoso, espaço de controvérsias, de aproximações, de versões, de contradições e de imaginários sociais movediços. Buscam provas. Trabalham com indícios. Quase nada é definitivo. Carlo Ginzburg fez a pergunta fundamental que não cala:

Mas pode um paradigma indiciário ser rigoroso? A orientação quantitativa e antiantropocêntrica das ciências da natureza a partir de Galileu colocou as ciências humanas num desagradável dilema: ou assumir um estatuto científico frágil para chegar a resultados relevantes, ou assumir um estatuto científico forte para chegar a resultados de pouca relevância.9

Nunca se chega a verdade? Sim. A verdade, porém, não é necessariamente uma rocha inquebrantável. É um conceito. Se o historiador de ofício, preocupado com o rigor das suas provas, embrenha-se em demonstrações obscuras, afastando-se dos públicos mais amplos, o historiador de ocasião tende a simplificar para satisfazer o senso comum. O filósofo Michel Foucault definiu verdade com a ambiguidade que o termo carrega para desespero dos que possam querer algo sólido, definitivo, claro, unívoco e incontestável:

O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder […]. A ‘verdade’ é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é, os tipos de discursos que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.10

Isso vale também para a verdade sobre a legitimidade dos campos de produção de conhecimento, suas regras e seus troféus. Nesses campos, se há dominantes e dominados, há também guerras intestinas devastadoras. O dominante tomba. O dominado ascende. O regime de verdade altera-se. Tudo flui. O desafiante de hoje poderá ser o desafiado de amanhã. O historiador, jornalista que cobre o passado, lida com indícios, fragmentos e fontes. As suas grandes reportagens procuram reconstituir o que já se foi deixando rastros, impressões e pistas. Há no historiador algo também de arqueólogo. Cabe-lhe, a partir de cacos, remontar quebra-cabeças que jamais serão a verdade inquestionável, restando sempre uma margem de especulação, de dúvida e de probabilidade. A narrativa histórica, assim como o documentário cinematográfico, não é uma ficção, mas ambos recortam, angulam, hierarquizam, determinam o espaço de cada fonte, organizam o material e inserem suas construções discursivas em constelações teóricas cujas escolhas derivam, mesmo que inconscientemente, de imaginários, experiências emocionais, histórias de vida e ideologias. Por trás da racionalidade, que se revela em procedimentos metodológicos, fervilham escolhas, inclusive a de um tema ou de uma hipótese, que se perdem em universos psicológicos perpassados por associações inapreensíveis. 

O jornalista, que seja também historiador por formação acadêmica, com doutorado, por exemplo, em Sociologia, poderá experimentar as dores e as delícias da transdisciplinaridade. Será, talvez, considerado acadêmico no jornalismo e jornalista na academia. Em todos os campos, correrá o risco de ser visto como deslocado por excesso ou falta: excesso de citações no jornalismo; falta, supostamente, de rigor na História; excesso de apego a “fatos”, como se eles fossem capturáveis na natureza, na Sociologia; falta de poder explicativo ou interpretativo para os teóricos. Mesmo os trabalhos amparados em milhares de documentos laboriosamente garimpados em arquivos poderão ser rotulados como de vulgarização histórica. O historiador de ocasião talvez não se preocupe com o reconhecimento acadêmico. O historiador de ofício não depende dos aplausos do público e da mídia. Tem as suas instâncias de consagração. O híbrido, porém, vive entre dois ou mais mundos, sendo “dominado” em todos eles. Nada, contudo, seria capaz de afastá-lo das suas múltiplas vocações.


Juremir Machado da Silva é escritor, jornalista e professor na PUCRS. É doutor em Sociologia pela Universidade de Paris V, Sorbonne.

Notas   [ + ]

1.Jean-François Lyotard, O Pós-moderno (José Olympio, 1986).
2.Pierre Bourdieu, Sobre a televisão (Jorge Zahar, 1997), p. 57.
3.Pierre Bourdieu, Sobre a televisão, p. 94.
4.Pierre Bourdieu, Sobre a televisão, p. 94.
5.Paul Veyne, Como se escreve a história (UNB, 1998), p. 11.
6.Pierre Bourdieu, Sobre a televisão, p. 93.
7.Max Weber, Ciência e política: duas vocações (Cultrix, 2015), p. 35.
8.Edgar Morin, O Método 5: a humanidade da humanidade – a identidade humana (Sulina, 2007), p. 58.
9.Carlo Ginzburg, Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história (Cia das Letras, 1989), p. 178.
10.Michel Foucault, Microfísica do Poder (Edições Graal, 2011), p. 12.