Roth no ringue

Um dos escritores mais incisivos e celebrados de sua geração, Philip Roth se valeu de uma batalha com seu próprio berço para tornar sua obra relevante.

Philip Roth, Por que escrever? Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013) (Cia das Letras, 2022).

Philip Roth durante uma pausa no trabalho (© Bob Peterson/The LIFE Images Collection)

Há quase dez anos, o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou no seu portal uma façanha: uma raríssima entrevista em vídeo com o romancista norte-americano Philip Roth, gravada numa casa sua no interior do estado americano de Connecticut. Um cidadão um tanto reservado – em um perfil da The New Yorker em 2000, David Remnick o apresentou como “usando suéter de lã shetland e calça de veludo verde”, em uma casa sem telefone ou fax –, Roth de algum modo topou ser entrevistado em vídeo para o jornal brasileiro. Uma pesquisa no YouTube mostra a raridade da breve conversa.

Diz Lúcia Guimarães, a entrevistadora, que à época Roth havia anunciado sua aposentadoria após a publicação de Nemesis, um livreto de 2010 que retrata a pandemia de poliomielite nos Estados Unidos dos anos 1950. Em sete minutos, o “grande escritor americano” de sua geração reflete sobre adaptações de sua obra ao cinema (ele definiu A Marca Humana, a única feita até então, como “um desastre”), sobre a morte de seus personagens e sobre a própria finitude  – que o abraçaria seis anos depois, em 2018.

E ele revela detalhes sobre sua rotina de escrita: “Ouço música clássica quando vou do estúdio para casa fazer o jantar – o que deve acontecer em uma hora e meia. Deixo a música tocando quando preparo o jantar e estou comendo”, ele explica. “Depois assisto a um jogo de beisebol por meia hora e depois leio”. Para escrever, silêncio absoluto.

Roth também recorda nas entrevistas, tanto para o jornal brasileiro quanto para a revista norte-americana, das aulas que deu sobre escrita criativa em universidades dos EUA e de outros países. Este aspecto escolástico de um eterno concorrente ao Nobel é um dos fios que movem Por que escrever?, uma coletânea de ensaios, palestras e entrevistas que tratam mais do seu back-end, seu processo de produção.

Originalmente organizado pela Library of America, o livro se divide em três partes – e cobre praticamente toda a carreira do autor: enquanto em 1960 ele despontava como o desbocado por trás das páginas de Adeus, Columbus (lançado no ano anterior), em 2013 ele já era um senhor aposentado e entrevistado pela grande mídia brasileira.

É importante dizer que Roth é, entre os escritores de sua era, o que talvez melhor tenha suas identidades definidas – é um dos autores que mais trouxe, para dentro de sua obra, seus limites sociais e geográficos. Ele é o autor da comunidade judaica nos Estados Unidos e, apesar de não possuir uma obra antropologicamente fiel ao grupo, sem se aprofundar no que seriam os construtos sociais e nas bases factuais da realidade deste grupo, ele ainda assim é o mais fiel retratista dos judeus americanos, unidos e deslocados em uma terra livre, pressionados por novos costumes e uma eterna ameaça de perda da sua identidade, o laço original. 

A obra de Roth raramente rompeu os limites geográficos da sua própria infância, na margem direita do rio Hudson, com uma Nova Jersey que parece de costas a uma cosmopolita e vibrante Nova York a um túnel Holland de distância: Newark, Passaic, Weequahic, todos são espaços que a comunidade judaica retratada (e malhada) por Roth ocupa: são donas de casa neuróticas, filhos reprimidos e pais ciosos da imagem familiar dentro da sua comunidade, com trabalhos ilustremente burocráticos, como representantes em agências de seguro. São os fantasmas que seguram a ilha de Manhattan com os pés no chão, por assim dizer.

“Era uma robusteza verbal, pessoas falando, incrivelmente alegres, jogando bola, competindo, as energias fluindo…”, ele rememorou de sua infância à revista New Yorker. “Apetite. Talvez seja a palavra correta. A agressividade vinha dos apetites.”

Não foi uma surpresa que os judeus norte-americanos, seus primeiros leitores, se tornaram seus maiores críticos: o apetite voraz de Roth em dar luz própria à comunidade judaica era latente desde o primeiro livro, mas nenhuma reserva ao seu trabalho seria comparada ao feedback que ele teve pelo lascivo Alexander Portnoy e seu O Complexo de Portnoy (1969). Hoje o vemos como um clássico da revolução sexual dos anos 1960 que facilmente faz gentios rirem (como eu ri diversas vezes ao ler o livro pela primeira vez uma década atrás), mas o livro quase o colocou como persona non grata entre seus pares.

Portnoy – o primeiro personagem de relevo na carreira do autor – preenche um livro sem esqueleto, quase como uma ameba recheada de fluxos de consciência feitos pelo personagem principal ao seu psicanalista, Dr. Spielvogel. Ali se encontra um homem adulto ainda abalado pela criação ultraprotetora da mãe (o primeiro capítulo se chama “o personagem mais inesquecível que conheci na vida”); um judeu que descobre na masturbação uma fuga à sua rebeldia; e um perdido que vai a Israel para buscar uma resposta à sua vida, mas retorna de lá com a descoberta de que está impotente.

Roth levou, pelo que escreveu em suas 200 páginas de Portnoy, o apelido de “judeu auto-odioso”. Jornais literários sob comando de judeus publicaram charge sobre “o livro revoltante” do novato. Três anos depois, com o autor já famoso, Irving Howe, editor crítico a ele, escreveu um artigo chamado “Reconsiderando Roth” – apenas para culpar o autor de “falta de tato literário”. A história hoje o redime como um verdadeiro livro moderno, que bebeu de inspirações que vinham de James Joyce e Virginia Woolf para construir um pilar da literatura que viria depois.

(Essas rusgas são cócegas perto, por exemplo, do que aconteceu com o seu contemporâneo Salman Rushdie. O escritor britânico de origem indiana tem com Roth o mesmo laço de pesadas críticas à sua formação religiosa — sendo Rushdie um muçulmano liberal. A publicação de Os Versos Satânicos, em 1988, deu a Rushdie uma inédita ameaça de morte feita pelo então aiatolá Khomeini, por “blasfêmia”. Um tradutor da obra japonesa foi morto em 1991 e, em 2022, 33 anos após a ameaça, Rushdie perdeu um olho e o movimento das mãos após ser atacado a faca.)

Mas de volta ao Roth, a reação dos líderes religiosos à obra não impediu que ele seguisse explorando uma espécie de diorama da comunidade que o gerou. É como se ele brincasse de casinha (sendo a casinha um tanto parecida com seus personagens): do mesmo nordeste norte-americano, saem as aventuras de Nathan Zuckermann, um alter-ego que vem a ser o segundo personagem relevante da obra de Roth, passando por obras como Lição de Anatomia, uma novela angustiante onde o personagem principal, durante crises de dores no corpo, reflete sobre uma vida medíocre. 

E, ali na região, se passa o Complô Contra a América, uma visão da América corrompida por uma celebridade eleita presidente nos anos 1940 que se alia ao fascismo logo de cara – premissa que acabou indo parar numa morna minissérie da HBO de mesmo nome.

A genialidade também encobria um escritor centralizador e difícil – que dizia querer “afrontar, afrontar e afrontar até que não houvesse na Terra ninguém que não estivesse afrontado” – e que escolheu seu biógrafo oficial, permitindo a publicação de sua história apenas após sua morte. O livro, de quase 1000 páginas, acabou sofrendo do cancelamento do seu autor, Blake Bailey, acusado de abuso sexual.  

Nos ensaios, Roth não foge da conturbada relação com os representados no seu diorama: um curioso texto, de nome “Escrevendo sobre judeus”, traz comentários sobre as cartas que a Liga Antidifamação norte-americana e um grupo de rabinos  enviaram para ele no início de sua carreira. Os líderes religiosos criticaram tanto seu trabalho que, ainda em 1962, ele jurou jamais escrever sobre judeus de novo (coisa que ele claramente descumpriu).

Um exemplo: quando Emanuel Rackman, um proeminente líder religioso, reagiu a um conto seu publicado na Paris Review em 1959, Roth resolveu que deveria bater de frente: “É presunçoso da sua parte, rabino Rackman, de falar de você mesmo como ‘um líder do seu povo’. Você não é meu líder”, disparou o escritor, “e eu só posso agradecer a Deus por isso.”

“A questão, realmente, é quem falará a homens e mulheres como homens e mulheres, e quem se dirigirá a eles como se fossem crianças”, disse. “Se há judeus que começam a achar que as histórias contadas pelos romancistas são mais provocantes e pertinentes que os sermões de alguns rabinos, talvez seja por haver neles regiões de sentimento e consciência que não podem ser tocadas pela oratória do autoelogio e da autocomiseração.”

Ao leitor, cabe refletir não apenas sobre um autor relevante, mas um caso raro dentro da literatura: o homem que escolheu, ao mesmo tempo, descrever sua cultura e, ao seu modo, renegá-la. Um desafio à associação a um grupo socialmente numeroso e relevante onde, aparentemente, ele se sagra vencedor sem conceder muito. Ele venceu não por vestir a camisa de seus antepassados, mas justamente por tirá-la.

Ao fim, compete a um entrevistador da revista francesa Le Nouvel Observateur questionar ao eterno candidato ao Nobel por que tanto esforço em escrever – e, por consequência, em subverter a ordem de um entorno tão regrado como o seu. O ensaio, presente no livro, mostra o que tanto sufocou o autor – o seu próprio diorama: “Leio ficção para me libertar de minha perspectiva de vida sufocantemente enfadonha e estreita, para ser atraído a manter um relacionamento imaginativo com um ponto de vista narrativo totalmente desenvolvido que não seja o meu”, ele conclui. “É a mesma razão pela qual escrevo.”


Gui Mendes é jornalista, cobrindo política e justiça em Brasília.