A propósito de Lacan

Lélia Gonzalez discute a psicanálise e o pensamento lacaniano ao abordar os trabalhos de Antônio Sérgio Mendonça e M.D. Magno.

Lélia Gonzalez. © Cesar Loureiro, 1993

Em artigo publicado originalmente em 1975, prenunciando seu interesse pela psicanálise para a compreensão da cultura e da política no Brasil e na América Latina, Lélia Gonzalez reflete sobre o pensamento lacaniano. O texto faz parte da coletânea Por um feminismo afro-latino-americano (Zahar, 2020), organizada por Flavia Rios e Márcia Lima, que reúne textos da intelectual mineira publicados entre 1979 e 1994.


A José Barbosa dos Santos
Quem me dera ser sonhada pela minha realidade.
DAL

Tentaremos caracterizar duas vozes que, embora ressoando diferentemente, apontam para o pensamento lacaniano. Duas vozes que, talvez por isso mesmo, têm despertado as acusações mais disparatadas, que nada (ou tudo) têm a ver com o que elas dizem. O tentar fazê-las calar ou, pelo menos, não deixar que sejam ouvidas parece-nos típico de uma espécie de discurso que, em sua infinitude fechada, não admite que se lhe apontem as limitações. Ele quer se impor como a verdade incontestável, “natural”, eterna. Pertence ao grupo de discursos de tipo consciente, colocando-se como lugar-tenente da ordem, da normalidade, da clareza. Por conseguinte, só consegue entender a palavra como signo, jamais como nó de significação. Tudo bem…

1. Antônio Sérgio Mendonça é um jovem professor universitário (atualmente diretor do Instituto de Comunicação e Artes da Universidade Federal Fluminense — este é o seu último “pecado”), cujos cursos vimos acompanhando na pós-graduação da Escola de Comunicação da UFRJ: Narrativa e Cultura de Massa (primeiro semestre de 1974), Semiologia do Discurso — Uma Visão Estruturalista (segundo semestre de 1974), Análise Semiológica do Literário (primeiro semestre de 1975) e Semanálise (Introdução aos Conceitos de Jacques Lacan). Percebe-se, a partir da titulação desses cursos, o caminhar de “uma inteligência aguda e inquieta em busca de uma solução original para a pesquisa semiológica”1 que, tendo passado pelo estudo acurado de Althusser, Lévi-Strauss, Derrida, Foucault, Kristeva (dentre os principais), acaba por desembocar no pensamento lacaniano. E, de curso para curso, verificamos um amadurecer e um aprofundar do pensamento de Antônio Sérgio Mendonça em face do discurso de Lacan. A impressão que se tem é a de um encontro. Parece-nos que o pensamento lacaniano representou para Antônio Sérgio o encontro da estrada real em que seu próprio pensamento, num percurso cada vez mais seguro, iria se situar como que em seu “lugar natural”. E essa nossa afirmação se fundamenta no fato de que seus cursos têm se apresentado como uma reflexão, em termos lacanianos, sobre os temas neles propostos.

Já no primeiro deles, a colocação básica aponta para a narrativa de massa enquanto articulada por uma ótica estruturante de exclusão do sujeito. Mediante uma abordagem de caráter epistemológico, Antônio Sérgio analisa a Palavra Social e sua eficácia enquanto expressão do ponto de vista da comunidade, da normalidade e da clareza, isto é, da Lei e da Ordem.

O segundo curso conduziu à discussão de diversos núcleos problemáticos que pontuam o percurso efetuado pela semiologia. Daí o fato de cada texto se configurar como a apresentação e não a solução dos problemas suscitados. Sua orientação básica, por conseguinte, visava ao encaminhamento das discussões e ao desenvolvimento da reflexão sobre a teoria dos discursos, sobre o estruturar da significação. E a primeira questão a ser colocada indaga da significação enquanto língua e enquanto linguagem: esta última conduzindo à problemática do inconsciente. Estas significações se colocam em termos de diferença e remetem ao conceito de elaboração secundária (origem da repressão e da censura), para a significação linguística, e aos processos primários de condensação e deslocamento, para a significação não linguística. Em consequência, torna-se necessária a discussão sobre o inconsciente “estruturado como uma linguagem”, isto é, enquanto dotado de uma estrutura formal. E a categoria hegeliana de figura, tal como é apresentada na Fenomenologia do espírito, coloca-se como capacitada para explicar, no nível do sujeito, a linguagem do inconsciente. A partir daí, configuram-se várias questões que exigem uma articulação com os conceitos de conotação e denotação que, aprofundados, desembocam na reflexão sobre o metonímico e o metafórico. Nesse sentido, a crítica desenvolvida por Antônio Sérgio Mendonça à não distinção, por parte de Roman Jakobson, entre plano e função da linguagem nos pareceu decisiva. Isso porque, para aquele autor, a função poética pertence ao espaço linguístico; o que, consequentemente, implica o aprisionamento, na limitação do poético, mediante a submissão do significado simbólico ao significado linguístico. Se Jakobson não consegue estabelecer satisfatoriamente as categorias de metáfora e metonímia, é justamente por sua insuficiência quanto aos conceitos de plano e função da linguagem. Mas é justamente Lacan quem vai resolver o impasse criado por Jakobson, ao caracterizar o metafórico e o metonímico como discursos de transformação de cadeia sintagmática.

Daí a necessária distinção, de um lado, entre função de primeiro grau e função de segundo grau e, de outro lado, aquela entre plano denotativo e plano conotativo. Na função de primeiro grau (que se relaciona ao “registro do real, com sua estrutura de repetição, univocidade, simetria conjuntiva e reduplicação”),2 dá-se a predominância do eixo sintagmático, o que implica a ênfase dada às relações de contiguidade e ao mecanismo de combinação. Se articularmos a função de primeiro grau com os planos acima referidos, teremos o denotativo quando nessa cadeia sintagmática, no nível das relações de motivação (entre significante e significado), a combinação predomina sobre a seleção, e o conotativo quando ocorre o contrário. Daí se depreendem as noções de denotação de primeiro grau (D¹) e conotação de primeiro grau (C¹). “A primeira refere-se ao sentido dos termos codificados numa língua corrente”, enquanto a segunda remete a uma transgressão desse sentido, desde que “não rompa com seu princípio codificador básico, a ideia de contiguidade com a realidade empírica”.3 Já a função de segundo grau caracteriza-se por se realizar numa cadeia paradigmática, ou seja, naquela cujo princípio codificador é a substituição e cujas relações predominantes são determinadas pela similaridade. Enquanto a função de primeiro grau implica uma descrição linear, na predominância das relações de equilíbrio, a função de segundo grau implica uma relação transformacional. “Os efeitos de uma cadeia sintagmática caracterizam-se pelo predomínio da continuidade externa e conjunção interna dos elementos. No paradigma temos a relação de descontinuidade externa e disjunção interna.”4 Ao contrário do sintagma, onde ocorre uma univocidade de sentido, no paradigma ocorrem relações polissêmicas, isto é: uma abundância de significado que é alimentada pela abundância do significante. Se articularmos a função de segundo grau com os planos, teremos a denotação de segundo grau (D²) quando houver a predominância da combinação sobre a seleção, e a conotação de segundo grau (C²) quando se der o contrário. A denotação de segundo grau corresponde à metonímia, enquanto a metáfora corresponde à conotação de segundo grau. Esta a grande indicação de Lacan, a colocação do metonímico e do metafórico no nível da cadeia paradigmática.5

Quanto às articulações de metonímia-metáfora com deslocamento-condensação, gostaríamos de chamar atenção para o excelente artigo de Antônio Sérgio Mendonça, “Semanálise da obra oswaldiana”, onde se constata como o autor, a partir de uma leitura fecunda de Lacan, com rara felicidade e muita segurança no nível das articulações conceituais, desenvolve e fundamenta sua crítica à categoria de palavra-direta enquanto definidora da antimetáfora oswaldiana.

Retomando a questão das funções da linguagem, é importante apontar para o fato de que a linguagem de primeiro grau, dadas as suas características, enfatiza o papel do código ao colocá-lo como substituto do sujeito enquanto significante, isto é, enquanto lugar e função fundamental para a significação. Com isso, de acordo com a denominação de Antônio Sérgio Mendonça, ela se põe como estrutura de exclusão do sujeito, ao passo que a linguagem de segundo grau, na medida em que nela o código é determinado pela inclusão do sujeito como função significante, situa-se como estrutura de inclusão do sujeito. Tal designação encontra seu fundamento no trabalho de Jacques-Alain Miller “Ação da estrutura”. Essa distinção acaba por nos remeter à dificuldade que se coloca quando se pretende falar do estruturalismo sem levar em conta duas posturas que se diferenciam exatamente no que se refere à noção de estrutura. E é a partir de tal noção que se coloca o problema do sujeito. Lévi-Strauss opera com determinada categoria de estrutura que ainda permanece no espaço linguístico, apesar de seu trabalho ter reformulado e ampliado o modelo proveniente deste espaço. Todavia, sua noção de estrutura sofre dos mesmos limites do modelo linguístico na medida em que, também nela, está presente o problema da exclusão do sujeito. De acordo com essa postura, o acesso à linguagem-objeto se faz a partir de uma leitura sintagmática.

Por ser do tipo sintagmático, as relações que nos são oferecidas só permitem a leitura dos elementos segundo uma ordem simétrica. O analista da linguagem decompõe, em relações superpostas, os mesmos elementos, até então sintagmaticamente compostos, e preenche os vazios oferecidos pela diferença de leitura com a motivação de relações que indicam a sintaxe de transformações entre estes mesmos elementos. Isso é feito a partir de uma verdadeira importação de um modelo lógico que, trazido de outra regionalidade, operacionaliza esta transformação e, com isso, manifesta como constituidor dos limites da mensagem (aqui não tomada como conteúdo particular de cada mito, mas como o sentido que num corpus mitológico várias variantes possuem) a lógica material imanente, que permite a um falante articular um signo codificado. É justamente essa lógica que é revelada. O recorte superposto, executado pelo modelo, divide a narrativa nos dois planos, constituindo com a armadura o mínimo múltiplo comum da estrutura. A partir da barra, do traço diferencial produzido por esta, estabelecemos opositivamente os diversos códigos. A mensagem se atualiza como o sentido comum ao corpus existente, nos de-limites da articulação entre armadura e código. […] A partir desse procedimento, percebemos que essas relações constituintes, que não se davam a ver, eram pressionadas pelo contexto, o que permitia a formulação do inconsciente pelo binômio lógica imanente & contrainte contextual. Se observarmos o papel do jaguar já nos mitos da América do Sul, veremos que, do ponto de vista das relações entre os elementos internos destes, ele era o único animal que não só não se submetia ao homem, como o devorava. O léxico é ofertado por ligação contextual, apenas invertido assimetricamente para que se pressionem contextualmente os elementos narrativos e, a partir da ação do modelo, se revele a lógica imanente à versão contextual, e que por isso mesmo o permita falar. Por isso, a estrutura, que está escondida pela realidade empírica, tem a ver não com uma reduplicação desta, mas com o modelo que a revela como a articulação entre armadura, código e mensagem que, dessa forma, não se tornam contraditórios com a releitura da relação sintagma & paradigma efetuada por Lévi-Strauss em O cru e o cozido. Logo, [a] Estrutura se passa ao nível inconsciente ou, dito de outra forma, é responsável pelo conhecimento teórico dessa lógica subjacente que nos permite falar, conquanto não nos coloquemos no engendramento da mensagem repetida. Ora, essa descrição é completa do ponto de vista de como o Outro, como língua constituidora da Lei, dá ele mesmo condições de reprodução interiorizada e normativa. Mas ao dizer que o inconsciente é o discurso do Outro, não se diz que esse inconsciente está no Outro, como a lógica que o permite articular-se duplamente como discurso. [.] O latente não é a lógica imanente do objeto do discurso linguístico, mas a // manque// em nome da qual se elabora a transformação dos lugares significantes desse marco lógico. Está claro no exemplo freudiano que a associação livre não repõe o sentido do latente. Mas necessita ter falada a sua ausência estruturante pelo discurso que não encontra o lugar para o sujeito alienado no lugar da falta na cena virtual. Ou seja, para constituir a atualização da problemática da Lei, necessita-se combiná-la com a relação estrutura & falta & economia e abundância do significante. Trata-se de uma estrutura que dê conta da exclusão de cena de um lugar de sujeito desta forma incluído, conquanto não atualizado.6

Pelo exposto, verifica-se como e por que Lévi-Strauss não dá conta do lugar reivindicado pelo sujeito ao esquecer a outra cena e ao não dizer do plano do desejo e da verdade. E a hipótese lacaniana mostra que as regras que explicam o significado reprimido não são as mesmas que explicam o significado simbólico. Em suma, as regras do processo primário indicam que o significante desse significado transgride os limites da ação formal da elaboração secundária. O sujeito é um lugar que falta no espaço do discurso linguístico…

Falamos de aprofundamento no início deste escrito. De fato, o que caracterizaria o curso seguinte seria o encaminhamento no sentido de acentuar o caráter decisivo da contribuição lacaniana para a leitura do discurso literário. Assim sendo, mediante a característica abordagem epistemológica efetua-se a análise das mais importantes leituras do literário ou do artístico em geral. O contextualismo sociológico, com as colocações de Lukács e Goldmann, assim como as tentativas de Macherey e Badiou enquanto retomadas críticas, numa perspectiva althusseriana, das teorias do reflexo. Representadas pelas concepções que apontam o poético como um desvio da forma (Cholovski, Jakobson), a “estética de desvio”, na medida em que ainda depende do receptor, é designada como “um aristotelismo às avessas” e como situada “fora daquilo indicado pelo que lhe é ausente: uma leitura da ambiguidade como significação do silêncio”. A posição assumida pela estética do desvio caracteriza os limites e o reducionismo da visão linguística. Também a reflexão heideggeriana sobre o poético não deixa de ser analisada; e o que se evidencia é que, pelo fato de suprimir o simbólico, essa reflexão mostra sua insuficiência quanto à categorização do sujeito. Após a retomada do papel da estrutura de exclusão do sujeito, o curso culminaria, no seu final, com a caracterização da interpretação literária segundo a estrutura de inclusão do sujeito. Este rapidíssimo esboço visa tão somente a apontar para a desconfiança e a recusa, por parte de Antônio Sérgio Mendonça, em face de qualquer metodologia linguística ou antropológica da análise literária, na medida em que as duas respectivas disciplinas se comprometem com a estrutura de exclusão do sujeito. E, no final do referido curso, ficaria lançada a questão: por que não categorizar, em termos de uma verticalidade, a estrutura de inclusão do sujeito uma vez que, no decorrer dos três cursos, ela fora apresentada como a pedra de toque, a viga mestra de uma posição que decididamente se afirmava no sentido de não fazer concessões a qualquer tipo de pensamento que recalque a problemática do sujeito? A resposta, evidentemente, está no curso atualmente ministrado, cujo título despretensioso não revela o amadurecimento teórico desse jovem professor, adquirido no decorrer de “alguns anos de estudo”, de reflexão sobre os textos lacanianos.

E graças à sua maturidade teórica, à sua habilidade no manejo dos conceitos lacanianos, Antônio Sérgio Mendonça seria procurado por um grupo de analistas de vanguarda (em face da tradição empirista, de base kleiniana, que caracteriza a postura da grande maioria de nossos terapeutas) para introduzi-los nesse pensamento que, apesar de todas as resistências, institucionais ou não, se impõe por sua maneira original e radical de se pôr.

2. M. D. Magno, desconstrutor da linearidade sintagmática, característica dos discursos da ordem e da clareza, se apresenta a nós como o poeta, criador de novas significações, transgressor, agressor, “ruído a interferir na ordem redundante, querendo ser informação, repetição botando diferença a cada tida vez”. Em seus trabalhos teóricos — densos, complexos, ricos quanto à indicação de novas perspectivas, delineadas a partir da temática lacaniana — não deixam de estar presentes as ressonâncias do poético. Daí sua leitura exigir-nos um afastamento daquela preocupação típica de uma postura rígida quanto às suas exigências de “cientificidade”, que nos remete a pressupostos positivistas, lembrando um cientificismo. Graças talvez à sua formação, os escritos de M. D. Magno ressaltam o modo elegante e rigoroso de um pensamento eminentemente topológico. Assim é que, a partir desse Lugar, esse pensamento se tem posto em aspecto de indagações, questionamentos, sugestões, proposições que culminam em trabalhos como “O Shifter e o Dichter” e “Gerúndio (Primeira ementa para uma antropologia do sujeito)”. Vale notar que seus escritos não são, propriamente falando, lacanianos, posto que lacanianos são os escritos do próprio, mas que, em Lacan, encontraram emulação necessária para alçar voo próprio.

Assim é que, no primeiro dos escritos citados, partindo da crítica lacaniana ao conceito de shifter de Jakobson (e magniana à dêixis de Benveniste) mediante esquemas e a análise do Chá muito louco de Alice, o autor afirma que o “que Dormeuse denuncia é que o discurso é máscara como o é a pessoa, e que todos se alienam a ambos, e aí está a loucura essencial”.7 Dormeuse é então apontado como ocupando o lugar de quarta pessoa, “essa não-pessoa que no entanto permite as demais”. Designando-a com a expressão ôme, “tomando do chulo, às vezes no jargão da crendice brasileira designando a inexistente pessoa a quem recorrer (umbanda, quimbanda, macumba)”. E, mais adiante:

É o ôme essa pessoa não-pessoa que vai melhor indicada no termo francês de personne: ao mesmo tempo pessoa, máscara e ninguém: quem põe o ser aí. Ôme é o zero, grau zero da personalidade, primeiro número na razão de Frege, quarta pessoa (por nosso ocultamento), primeira pessoa, em zero, por desvelamento.

E retomando os esquemas anteriormente assinalados, aponta “aquela circunferência como o lugar do ôme, lugar onde se instaura […] a possibilitação de pessoa e de indivíduo”. E prosseguindo na caracterização desse ôme, o autor, com rara felicidade, ao responder à questão “quem sou?”, fá-lo através de Breton:

Quem sou eu? Se por excesso me referia eu a um adágio: um efeito porque tudo isso não viria a ser questão de saber quem eu “habito”? [.] Esta última palavra me faz representar, por meu viver, o papel de um fantasma, evidentemente ela faz alusão ao fato de ter sido preciso que eu cessasse de ser para ser quem sou. (Grifo nosso)

Não é sem razão, aliás, que Lacan se relaciona tão de perto com os surrealistas.

Prosseguindo em sua investigação sobre o problema do sujeito, M. D. Magno aponta para a contribuição que nesse sentido é dada por Brecht e Artaud, em cuja mesma desintenção poética percebemos a indicação para a lembrança do ôme.

Queremos, em ambos, surpreender, é a vontade de um teatro que se saiba discurso do sujeito e não discurso de um sujeito […]. Uma cena presente sim, mas que não se funda na instância de sua dêixis, porém na mostração de ôme heroicamente escapando à sujeição de enunciado e de enunciação — melhor: denunciando a dupla sujeição.

E em sua reflexão sobre o escrito lacaniano Subversion du sujet et dialectique du désir, o autor se pergunta da não satisfação a Lacan do esquema de Jakobson. E não só responde mostrando que no dito esquema “a posição do sujeito (do inconsciente) resta confusa”, como propõe um outro esquema que resguarde os conceitos jakobsonianos de enunciado e de enunciação,

de serventia linguística, mas onde o “existencial” que a relação desses conceitos promove também se compreende e se resguarda, assentando no sujeito de Lacan (Freud). Neste esquema se alega uma terceira instância — sujeito da denúncia a se posicionar no entre dois sujeitos […] denunciando a barra que os separa, como de resto toda barra, sujeito na barra a constituir um hífen-barra

(quanto a este conceito magniano, leia-se em Lugar 1 seu escrito “O hífen na barra”). E que é que esse sujeito denuncia? A clivagem que se dá entre enunciado e enunciação e, sobretudo, “a clivagem primeira do sujeito (Urspaltung), entre sua instância e sua manifestação, a barra na língua (Refente) — denúncia que os ditos sujeitos do enunciado e da enunciação não estão por inteiro no mesmo campo de sujeição (Fente)”. Vejamos o esquema proposto:

SUJEITO DO ENUNCIADO (por ex., Eu, como sujeito da frase)
(persona)
SUJEITO DA DENÚNCIA (?)
(ôme)
SUJEITO DA ENUNCIAÇAO (por ex., Eu como shifter)
(ego)

E é nesse momento que a leitura de seu escrito nos põe em face da plenitude criadora do pensamento de M. D. Magno: a proposição do Dichter,

do termo alemão que traduz poeta (mas também de dicht, denso, cerrado, espesso, acrescentado da partícula er e que, fonicamente ladeado do termo posto por Jakobson para a categoria de embreador, o shifter do inglês, promete farta significação).

Mas o que vem a ser esse Dichter em sua nova postulação?

Digamos que Dichter é todo traço desse sujeito da denúncia que chamamos. Não se trata de nenhuma categoria meramente gramatical, ou verbal, mas categoria de discurso, de manifestação qualquer, presente toda vez que se lhe abre estádio, inconscientemente despontada, restando inconsciente muita vez.

Daí a necessidade de uma análise que procure isolar e indicar esses Dichter, talvez com certa imprecisão, mas que aponte

a frequência de um elemento (partícula, ser) bastante estranho sim e felizmente, que pervade todo discurso e todo o discurso — e que nenhum campo do useiro saber (linguístico, semântico, semiológico, outro) consegue reduzir à lógica forcada de sua elaboração. (Grifo nosso)

E ao fazer referência a determinada passagem dos Essais sur le Boudhisme Zen de Suzuki, o autor mostra que a prática de Koan

remete a esse encontro com o sentido como não-senso […] dizer o dizer com neutralidade no próprio discurso, como denúncia, no discurso, da alienação que o discurso não pode mesmo deixar de sofrer e fazer sofrer […]. O gesto de len é como “signo” não arbitrário que se põe: como sintoma? O sintoma é o Dichter por excelência. O sintoma é neologismo forçando dar entrada na linguagem à presença de ôme (ω).

Partindo de uma sugestão de Fernando Pessoa a respeito da arte de imitar a natureza em seus processos, M. D. Magno toma como exemplo uma consideração de Segre a respeito da diferença entre signo e sintoma para caracterizar a matéria “sígnica” da arte como intermediária entre ambos. Chamando-a de ícone (= um quase-signo intermediário entre signo e sintoma), Magno afirma que sua gênese, que se constitui como precursora e possibilitadora da gênese do signo (e da língua, portanto), está

na representação (inscrição) do real mediante a máquina do vivo, em algum representamen natural “animalizado” (no sentido pessoano) por sua capacidade expressiva, convincente mesmo de vida própria. Assim o ícone é diretamente motivado, em diferença: pelas funções mesmas provindas do real e que vão se inscrever (pela máquina psíquica) como representações a se repetir e, daí por diante, com o que o signo se torna arbitrário — arbitrariedade instalada pela repetição, desinvestimento do sintoma e sua consequente regulamentação.

Tais colocações acabam por nos remeter a outro artigo aqui referido, “Gerúndio”, onde o autor procura desenvolver uma “‘connaissance aprochée’ dessa máquina gerante, que, de efeito, rendeu o que se chama homem (e que nós chamamos ôme)”.8

Propondo uma hermenêutica integral capaz de uma abordagem do poético, de um levantamento da economia dos Dichter como indicadores da denunciação (essa “hermenêutica da desintegração” é proposta com o nome de Semasionomia), o autor afirma a possibilidade de recuperação do sintoma ao ser surpreendido em seu aparecimento, em sua articulação, assim como na “racionalização que o esconde, submetendo-o aparentemente […] a uma imposição meramente linguística e de mal competente categorização”.

Apontando os Dichter como responsáveis pelo próprio processo de iconização que permite ao poeta fundar o signo a partir do sintoma, assim como pelo processo de subversão mediante o qual o poeta se colocaria como destruidor do signo a fim de que se desse a vigência da linguagem originária, o autor, concluindo, reafirma a necessidade de categorização da entidade indicadora de sentido que denuncia o afastamento entre enunciado e enunciação e que se centra no sujeito enquanto singularidade. Daí, portanto, a necessidade de um método e de uma técnica para constituírem a Semasionomia enquanto teoria da plena significação. Em conversa com o autor, este nos explicou que a hermenêutica integral não tem a ver com a conhecida, mas é uma hermenáutica, isto é, o percurso do significante em seus efeitos enquanto posição do sujeito na deriva.

Pelo exposto, não podemos considerar M. D. Magno como um mero seguidor de Lacan. Nesse sentido, não podemos deixar de lembrar uma declaração sua a esse propósito: “Não sigo, mas quando encontro tento andar ao lado”. Mas essa originalidade criadora que o caracteriza tem outras fontes de inspiração: suas leituras freudianas, que datam da adolescência, estas sim profundamente sonhadas. Sem esquecer aquelas de mesmo alcance, de mesmo fundamento: Joyce e Rosa. Como tais, modeladoras de um estilo, de um trabalho na linguagem. Que se leia Aboque/Abaque. É aí, nesse escrito, que se percebe, em termos de literariedade, como o autor se permite a

reinvenção de textos, a partir de manifestações reais, de modo a apontar no trato da linguagem o brusco surgimento do desregrado, do patológico ou do simples efeito inconsciente — o que é também uma indicação reflexiva, como no texto científico, desses fenômenos irrealizantes da palavra.

E em “Gerúndio” o autor não se furta a apontar aqueles que o inspiraram naquele escrito: o pensamento de Freud (Mais além do princípio do prazer), o conceito de integron de Jacob (La logique du vivant), a ciência freudiana de Lacan, o “rigoroso delírio científico” de Lupasco (Les trois matières, Nuevos aspectos del arte y de la ciencia, Du rêve, de la mathématique et de la mort, L’Énergie et la matière vivante, Du devenir logique et de l’affectivité) e o pensar do poeta, aqui representado pelo delírio rigoroso de Michaux (Les grandes éprouves de l’esprit, Connaissance par les gouffres, Misérable miracle, L’Infini turbulent etc.).

Partindo da leitura dos trabalhos de M. D. Magno, quisemos, aqui, apontar para um pensamento que se coloca para além, isto é, para fora das discussões desenvolvidas no âmbito acanhado da instituição universitária. Pensamento rigoroso e rigorosamente voltado para ôme. Que não se preocupa com o fato de o seu dizer ser de caráter científico ou artístico, uma vez que tal disjunção não conduz ao fundamental e perde de vista o “significando desse ‘oximoro’ o homem partido no entre significado-significante”. Nesse sentido, não é demais recorrer àquele que, número especial deste Lugar (também xingado vituperado denegrido por um dessaber que não o leu, mas “ouviu falar”, ou que o leu sem o entender, e que não tem competência, evidentemente, para se colocar no nível em que ele está para, daí, responder-lhe), Jacques Lacan “ou o ‘Portavoz’”:9

Costumam dizer que ela [a psicanálise] não é uma ciência propriamente dita, o que parece implicar por contraste que ela é simplesmente uma arte. É um erro, se por isso entendermos que ela é tão somente uma técnica, um método operacional, um conjunto de receitas. Mas não é um erro se empregarmos essa palavra, “arte”, no sentido em que era empregada na Idade Média quando se falava das artes liberais — vocês conhecem a série que vai da astronomia à dialética, passando pela aritmética, a geometria, a música e a gramática. […] No entanto, é certo que o que as caracteriza e as distingue das ciências que delas teriam se originado é que conservam em primeiro plano o que se pode chamar uma relação fundamental com a medida do homem. Pois bem, a psicanálise talvez seja atualmente a única disciplina comparável a essas artes liberais, pelo que preserva dessa relação de medida do homem consigo mesmo — relação interna, fechada sobre si mesma, inesgotável, cíclica, que o uso da fala comporta por excelência. (Grifos nossos)10

No momento, aguardamos a tese de M. D. Magno, cuja publicação certamente nos colocará em contato com uma abordagem original, criadora, da obra de Guimarães Rosa. Esse trabalho confirmará o que viemos de dizer de seu autor, na medida em que nele terá apontado aspectos que a crítica desenvolvida em torno de Rosa talvez não tenha sequer suspeitado.


Lélia Gonzalez (1935–1994) foi tradutora, professora, antropóloga, filósofa, feminista e militante antirracista.

Notas

↑ 1.Júlio Carvalho, “A semiologia no Brasil”.
↑ 2.Antônio Sérgio Mendonça, Teoria da literatura, p. 192.
↑ 3.Antônio Sérgio Mendonça, “Semiologia do discurso”, in: Inter-relacionamento das ciências da linguagem, p. 18.
↑ 4.Antônio Sérgio Mendonça, Teoria da literatura, p. 193
↑ 5.Veja-se, em Jacques Lacan, Las Formaciones del Inconsciente, pp. 67 ss., a análise lacaniana a este respeito.
↑ 6.Antônio Sérgio Mendonça, “Por que ainda se deve falar de metonímia e metáfora”.
↑ 7.M. D. Magno, “O Shifter e o Dichter”. Como pretendemos desenvolver nossa abordagem fundamentando-nos sobretudo nesse escrito magniano, ressaltamos que, para nossa maior comodidade, as citações que estiverem simplesmente aspeadas sem remeterem a uma nota se referem a esse trabalho.
↑ 8.M. D. Magno, “Gerúndio”.
↑ 9.C. B. Clement, “Lacan ou o ‘Portavoz’”.
↑ 10.Jacques Lacan, “El mito individual del neurótico o ‘Poesia y Verdad’ en la neurosis”. Tradução de Claudia Berliner em O mito individual do neurótico (Zahar, 2018, pp. 11-2). (N. E.)