Um pensador na periferia da Hist贸ria

Paulo Arantes 茅 um pesquisador da “sintaxe” hist贸rica 鈥 da estrutura mesma das rela莽玫es entre capitalismo, sociedade, ideologia, crise. Nos conduzindo pela complexa obra do intelectual paulista 鈥 de sua tese Hegel: a ordem do tempo ao mais recente O novo tempo do mundo 鈥 Gabriel Tupinamb谩 esmiu莽a a obra de Arantes focado em uma quest茫o: a experi锚ncia da transforma莽茫o hist贸rica.

Paulo Arantes em semin谩rio na Escola da Cidade, em S茫o Paulo (漏 Escola da Cidade, 2016)

Um pr贸logo

O famoso poema de Pier Paolo Pasolini As Cinzas de Gramsci,1 escrito em 1954, 茅 uma longa e densa medita莽茫o pessoal que explora os sentidos de uma transforma莽茫o na sua experi锚ncia da hist贸ria. Algo dessa mudan莽a se torna pens谩vel no poema, que captura o momento em que o lento entardecer no cemit茅rio Acattolico de Roma, a vis茫o silenciosa do t煤mulo do finado marxista italiano e o sentimento desse tempo hist贸rico vacilante se superp玫em. 

Pasolini situa constantemente o poema entre dois mundos2 鈥 entre a morte de Gramsci e sua pr贸pria vida no p贸s-guerra italiano, entre o sil锚ncio do jardim do cemit茅rio e os barulhos distantes das “oficinas do Testaccio”, entre o senso hist贸rico militante e sua “paix茫o est茅tica” pela vida prolet谩ria 鈥 sem nunca permitir que essa tens茫o se concilie nem na fus茫o, nem na separa莽茫o total entre esses espa莽os incomensur谩veis. 脡 assim que, ao final da quarta parte do poema, endere莽ada diretamente a Gramsci e dedicada ao “esc芒ndalo de me contradizer, de estar/ com e contra ti”, encontramos a seguinte passagem, que conclui a se莽茫o:

Pobre entre pobres, assim como eles
me apego a esperan莽as humilhantes,
e como eles para viver combato

todo dia. Mas nesta condi莽茫o
desesperadora de deserdado
eu possuo, possuo a mais exaltante

das possess玫es burguesas, o estado
mais absoluto. Mas, se possuo a hist贸ria,
ela me possui, e dela me ilumino:

mas de que serve a luz?3

“Pobre entre os pobres”, a estrofe j谩 demarca uma m铆nima diferen莽a entre o poeta e os demais, antecipando 鈥 primeiro pela repeti莽茫o da palavra e, em seguida, pela repeti莽茫o de uma express茫o de similaridade, “como eles” 鈥 a constata莽茫o de que n茫o se trata de uma identidade direta, um pertencimento incondicionado 脿 vida prolet谩ria. A similaridade 茅 interrompida no in铆cio da segunda estrofe, cuja adversativa nos introduz ao cerne da contradi莽茫o da sua posi莽茫o: mesmo vagando entre os despossu铆dos, h谩 uma posse que o distingue dos demais, “a mais exaltante/ das possess玫es burguesas” 鈥 “o estado/ mais absoluto (…) a hist贸ria”. 

A contradi莽茫o em jogo aqui, no entanto, n茫o 茅 apenas entre aqueles que “combatem todo dia” por necessidade e aqueles que lutam por escolha pol铆tica 鈥 como se houvessem dois grupos distintos, um a visitar o outro. Trata-se, antes, de um esvaziamento da possibilidade do tr芒nsito entre esses espa莽os, uma mudan莽a radical no valor hist贸rico desse esfor莽o militante de conviv锚ncia. A terceira estrofe 鈥 que culmina na pergunta solit谩ria do 煤ltimo verso 鈥 aponta para a transforma莽茫o na pr贸pria forma da historicidade, uma vez que a hist贸ria n茫o aparece como o sentido da conviv锚ncia entre o poeta e os trabalhadores italianos, mas como uma propriedade, um bem que pode ser t茫o mal distribu铆do quanto a comida ou a moradia: o “estado mais absoluto” que, como o Estado, tamb茅m recobre os territ贸rios de maneira desigual. Por meio dessa reduplica莽茫o da pobreza 鈥 a pobreza de n茫o ter hist贸ria e a pobreza da hist贸ria reduzida a uma propriedade burguesa 鈥, Pasolini constr贸i o dilema central do poema: o que significa ter hist贸ria, e n茫o mais ser hist贸rico? Se o sentido da hist贸ria n茫o mais descortina um mundo comum, mas ilumina apenas o meu lugar enquanto propriet谩rio desse bem escasso, “de que serve a luz?”

A luz 茅 uma imagem central na obra po茅tica de Pasolini. Na verdade, mais que uma imagem, ela evoca, como em Plat茫o, a pr贸pria inteligibilidade do mundo, como condi莽茫o do vis铆vel. 脡 atrav茅s da luz 鈥 uma “pura luz” 鈥 que, em A resist锚ncia e a luz,4 de 1961, as duras condi莽玫es da vida de migrante na It谩lia s茫o inclu铆das na hist贸ria do mundo:

No s贸t茫o l谩 de casa, a minha m茫e
continuava a olhar perdidamente para os montes,
j谩 consciente do destino: e era pura luz
Com os poucos camponeses em redor
vivia uma vida gloriosa de perseguido
pelos atrozes editais: e era pura luz5

A pureza da luz n茫o vem da certeza: n茫o 茅 que, iluminados pela hist贸ria, saber铆amos o por que do sofrimento e da labuta. A luz n茫o d谩 um sentido positivo 鈥 a luz n茫o 茅 ela mesma iluminada:

A luz era esperan莽a de justi莽a:
n茫o sabia qual: luz da Justi莽a

Sua principal caracter铆stica 茅, na verdade, a igualdade: “A luz 茅 sempre igual a outra luz”. A luz que ilumina a plan铆cie friulana 茅 indistinta da luz que ilumina o campo de batalha ou a luta na cidade. 脡 a mesma luz que ilumina a m茫e de Pasolini, aflita no s贸t茫o de casa, e seu filho mais velho, Guido, assassinado no front da guerra por aliados antifascistas. E 茅 exatamente essa dimens茫o indiferente da luz que, em As cinzas de Gramsci, se perde na medida em que a hist贸ria se torna uma “possess茫o burguesa”. Mas o que tornou poss铆vel essa nova experi锚ncia da hist贸ria? 脡 essa a pergunta que nos orientar谩 ao longo desse estudo sobre a obra de Paulo Arantes.

Do fim do futuro ao cercamento da hist贸ria

Poder铆amos situar em 1979 鈥 com a publica莽茫o do livro do historiador cultural americano Christopher Lasch, Cultura do Narcisismo: a vida americana numa era das expectativas decrescentes (Imago, 1983) 鈥 o surgimento da elegia do futuro prenhe de experi锚ncias in茅ditas, o horizonte de expectativa definidor da experi锚ncia hist贸rica moderna. Poder铆amos, se os Sex Pistols j谩 n茫o tivessem lan莽ado, num tom menos solene, seu “No Future” em 1977 鈥 dois anos ap贸s o assassinato de Pasolini. Desde ent茫o, tem sido um dos principais tropos da historiografia moderna e da sociologia do tempo explicar o que poderia ter levado a essa altera莽茫o na “sem芒ntica hist贸rica”, para usar o conceito de Reinhart Koselleck:6 por que o futuro parece cada vez menos aberto? Por que o presente parece se estender cada vez mais rumo ao futuro, num “presentismo” que absorve na infinitude das possibilidades j谩 dispostas para n贸s tudo o que o futuro poderia guardar de n茫o experimentado? 

Dependendo da abordagem e do prop贸sito, o diagn贸stico de uma retra莽茫o do horizonte de expectativa da modernidade 茅 acompanhado de diferentes etiologias. O pr贸prio Lasch, por exemplo, pensa essa perda de sentido hist贸rico, de dessensibiliza莽茫o quanto 脿s gera莽玫es passadas e futuras, em termos de uma psicopatologia social, um efeito da sociedade do consumo sobre os processos de individua莽茫o. Quanto menos dependentes dos outros n贸s nos consideramos, quanto mais atomizados e preocupados com o sucesso pessoal, de menos espa莽o ps铆quico podemos dispor para o que a tradi莽茫o nos lega ou para as surpresas do futuro. 

Outros, como o fil贸sofo e militante italiano Franco Berardi, autor de Depois do Futuro (Ubu, 2019), sugerem que a ideia de futuro perdeu sua efic谩cia por conta dos horrores do s茅culo XX: depois de Auschwitz, que teria dizimado qualquer cren莽a no progresso como um caminho que leva da barb谩rie 脿 civiliza莽茫o, a 煤nica ideia de futuro politicamente mobilizadora seria evitar a repeti莽茫o do campo de concentra莽茫o. Ora, diz Berardi, o mundo do p贸s-guerra n茫o s贸 fracassou retumbantemente nessa tarefa, como elevou o campo a um paradigma de controle de popula莽玫es. Logo, ele conclui, n茫o h谩 mais pol铆tica que possa apostar no futuro 鈥 pois o s茅culo passado nos ensinou que n茫o podemos acreditar no progresso t茅cnico como base para transforma莽玫es sociais. Diferente de Lasch, Berardi trata da “era das expectativas decrescentes” como um fen么meno com causas pol铆ticas e efeitos pol铆ticos, um novo predicamento e n茫o uma patologia 鈥 ainda que, para ele, isso ajude a explicar colateralmente a centralidade da depress茫o e dos novos transtornos de ansiedade em nossas vidas.

Poder铆amos acrescentar a铆 ainda a linha de investiga莽茫o sociol贸gica que encontramos, por exemplo, na obra Acelera莽茫o (Unesp, 2019), de Hartmut Rosa, que estuda a transforma莽茫o nas estruturas temporais da “alta modernidade”, sugerindo 鈥 em conson芒ncia com a hip贸tese do fil贸sofo Paul Virilio7 e da artista e te贸rica Hito Steyerl8 鈥 que a nossa stasis contempor芒nea n茫o se trata de uma par谩lise, mas de uma acelera莽茫o simult芒nea da vida e das estruturas institucionais. Sem um referente est谩vel, ser铆amos incapazes de distinguir se estamos em alta velocidade ou estacionados na hist贸ria. 

Mencionamos todas essas vertentes porque elas nos ajudam a distinguir a especificidade do projeto de Paulo Arantes. Diferente das an谩lises de Lasch e Berardi, que buscam dar conta das transforma莽玫es recentes na sem芒ntica hist贸rica a partir de transforma莽玫es psicol贸gicas, subjetivas ou ideol贸gicas, nosso pensador acompanha Pasolini ao buscar as bases da transforma莽茫o da historicidade nas condi莽玫es materiais da experi锚ncia da hist贸ria: nas suas rela莽玫es com a l贸gica do valor, da propriedade e do trabalho. De certa forma, podemos dizer que sua pesquisa vai da sem芒ntica para a “sintaxe” hist贸rica 鈥 a pr贸pria estrutura da organiza莽茫o social de nossa economia-mundo. Da铆 a express茫o, retirada das obras de Braudel e Eberhard, que d谩 t铆tulo ao seu livro de 2014, O novo tempo do mundo (Boitempo, 2014).

Essa abordagem mais estrutural poderia aproximar Paulo Arantes do campo sociol贸gico acima, que tamb茅m opta por uma an谩lise menos ideol贸gica dessas transforma莽玫es, mas aqui tamb茅m o projeto de O novo tempo do mundo se distingue da teoria cr铆tica europeia. Em geral, a sociologia cr铆tica pode at茅 apontar os efeitos das novas din芒micas do capitalismo financeiro, da centralidade do cr茅dito, das tecnologias de comunica莽茫o, do espet谩culo midi谩tico, sobre a experi锚ncia da temporalidade; contudo, por estar profundamente enraizada no paradigma cr铆tico moderno, raramente 茅 capaz de colocar em quest茫o a articula莽茫o original entre capitalismo, ideologia do progresso e sua atual exaust茫o. E, de certa forma, esse 茅 o gume da proposta de Paulo Arantes 鈥 isto 茅, a pergunta: qual 茅 o “combust铆vel” da m谩quina hist贸rica moderna, dado que essa agora parece girar em falso, superaquecer e esvaziar as promessas de futuro? 

Como no poema de Pasolini, em que a hist贸ria se revelou, por fim, uma mera propriedade, um bem sujeito 脿s condi莽玫es desiguais de produ莽茫o e circula莽茫o do nosso mundo, tamb茅m na obra de Paulo Arantes, na contram茫o de outros pensadores contempor芒neos, o esgotamento do futuro revela para n贸s o car谩ter material da historicidade. O decl铆nio das expectativas de futuro nos ensinaria, portanto, algo sobre as condi莽玫es de possibilidade da pr贸pria experi锚ncia moderna da hist贸ria.

A hist贸ria da experi锚ncia da hist贸ria moderna

Qualifiquemos rapidamente a hist贸ria desse decl铆nio, antes de investigarmos o arco ascendente que o precedeu. Nesse esfor莽o, n茫o fazemos muito mais do que reconstruir o cap铆tulo inaugural de O novo tempo do mundo.9

Poder铆amos, ainda que de maneira grosseira, escandir a hist贸ria moderna em tr锚s grandes estruturas sem芒nticas do futuro, definidas pela intera莽茫o de dois componentes 鈥 de um lado, a dist芒ncia entre o presente e o futuro e, de outro, a diferen莽a entre a experi锚ncia presente e o horizonte do n茫o-experimentado: o horizonte da revolu莽茫o, da guerra e da crise.

A “era das revolu莽玫es10 鈥 das Revolu莽玫es Puritana, Francesa e Americana 鈥, que Hobsbawm define a partir da tens茫o entre a revolu莽茫o industrial e a revolu莽茫o pol铆tica, 茅 um per铆odo em que a progressiva seculariza莽茫o da vida ap贸s a morte desemboca numa vis茫o de futuro marcada pelo corte entre duas ordens sociais extremamente diferentes:11 a ordem presente, conhecida, experimentada, e uma ordem futura, desconhecida, mas radicalmente nova. O horizonte 茅 distante 鈥 e a luta ideol贸gica 茅 para aproxim谩-lo, torn谩-lo palp谩vel o suficiente para a mobiliza莽茫o pol铆tica e social 鈥, mas extremamente diferente daquilo que j谩 conhecemos. Decorre da铆 tamb茅m o car谩ter ut贸pico das promessas revolucion谩rias 鈥 dado que n茫o podem ter lugar no mundo j谩 conhecido 鈥, bem como o estatuto paradoxal de sua tarefa: a transforma莽茫o pr谩tica do mundo conhecido, com meios conhecidos, rumo a uma forma莽茫o social desconhecida, que destruiria tanto o ponto de partida quanto os meios utilizados para chegar l谩.

Deixando de lado por enquanto a l贸gica do ponto de virada entre uma sequ锚ncia e outra 鈥 que Hobsbawm identifica na transi莽茫o que liga 1848 a 1875, a “era do Capital”12 鈥, estabelece-se em seguida um novo paradigma. Ao mesmo tempo em que a revolu莽茫o socialista se torna estrategicamente poss铆vel, no come莽o do s茅culo vinte, ela 茅 tamb茅m substitu铆da pela guerra como forma das expectativas de futuro na Europa.13 Se, na primeira metade do s茅culo dezenove, podemos encontrar Friedrich Engels apostando na inevitabilidade da revolu莽茫o e colocando a guerra civil como uma de suas poss铆veis consequ锚ncias, no come莽o do s茅culo vinte, o racioc铆nio de Lenin por tr谩s da funda莽茫o da Terceira Internacional 茅 o inverso: 茅 certo que vai haver uma nova guerra mundial e uma de suas consequ锚ncias 茅 a possibilidade do avan莽o do movimento revolucion谩rio.

A Primeira Guerra Mundial, que se imp么s como possibilidade inimagin谩vel at茅 sobre os seus principais art铆fices, inaugura assim um outro tipo de expectativa do futuro. A guerra torna-se o que podemos esperar 鈥 a “paz” conquistada ao fim da Primeira Guerra era prenhe deste sentimento 鈥 e 茅 dentro desse horizonte que devemos planejar nossas estrat茅gias pol铆ticas. Essa transforma莽茫o 茅 profunda: a expectativa da guerra 茅 mais iminente, mais pr贸xima do presente do que a revolu莽茫o. A sua imin锚ncia informa o mundo do trabalho e a economia nacional, atrav茅s da ind煤stria b茅lica e suas inova莽玫es. Mas tamb茅m a vida privada, que se transforma quando passamos a antecipar a possibilidade de que nossos la莽os pessoais sejam suspensos no caso de um bombardeio, um recrutamento em massa ou um novo conflito. Ao mesmo tempo, esse novo horizonte n茫o implica o confronto entre a ordem social vigente e uma ordem social desconhecida, absolutamente n茫o experimentada. Trata-se, antes, do conflito entre diferentes ordens sociais j谩 reconhecidamente poss铆veis: nem liberais, nem socialistas, nem mesmo fascistas visam a um mundo radicalmente novo, mas apenas garantir a continuidade de seu projeto perante a amea莽a da hegemonia dos projetos alternativos. O horizonte de expectativa da guerra 茅 mais pr贸ximo do presente que o futuro revolucion谩rio 鈥 e tamb茅m mais f谩cil de traduzir em termos estrat茅gicos do que ele, aproximando a figura do militante revolucion谩rio e a do soldado 鈥 mas tamb茅m menos carregado de promessas e novidade do que o horizonte da revolu莽茫o.

Contudo, o horror da bomba at么mica, a corrida armamentista e o subsequente fim da Guerra Fria sedimentaram em muitos sentidos a satura莽茫o desse paradigma em que projetos alternativos competem entre si, sob a amea莽a de uma guerra total iminente. A exaust茫o desse segundo horizonte de expectativas deu lugar a uma nova estrutura da experi锚ncia hist贸rica, que Paulo Arantes, na linha de autores como Gunther Anders, Giorgio Agamben e Moishe Postone, qualifica como o paradigma da crise como forma de governo.14 Diferente da guerra, a crise n茫o 茅 um futuro iminente, n茫o 茅 algo para o qual precisamos nos preparar 鈥 茅 antes aquilo que nos obriga a constantemente remediar seus efeitos.15 A estrat茅gia ret贸rica da pol铆tica da austeridade, por exemplo, n茫o justifica cortes e privatiza莽玫es com base num futuro poss铆vel, mas a partir da constata莽茫o de que o pior j谩 aconteceu e 茅 preciso nos adequar a ele. Trata-se, assim, de um horizonte em que o futuro praticamente coincide com o presente, e n茫o nos permite esperar nem uma ordem social radicalmente nova nem mesmo uma ordem social suficientemente diferente 鈥 guarda apenas a possibilidade do fim de qualquer ordenamento mundial, seja fruto da cat谩strofe social ou da cat谩strofe clim谩tica. Da铆 a famosa frase atribu铆da a Fredric Jameson, que, observando a produ莽茫o cinematogr谩fica recente de Hollywood 鈥 obcecada com distopias espetaculares 鈥, teria conclu铆do que “茅 mais f谩cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

Cabe notar que revolu莽茫o, guerra e crise nunca andaram separadas na modernidade 鈥 poder铆amos dizer que formam, na verdade, a face negativa da tr铆ade que articula Estado, Na莽茫o e Capital em um “n贸 borromeano”, como prop玫e o fil贸sofo japon锚s Kojin Karatani.16 De fato, n茫o 茅 poss铆vel entender a Revolu莽茫o Francesa sem considerar as guerras do per铆odo e a crise do regime mercantilista europeu ou entender as grandes guerras mundiais do s茅culo XX sem considerar a extens茫o do sistema colonial e os impasses do capital monopolista 鈥 assim como o novo papel da crise na organiza莽茫o do trabalho e do mercado financeiro contempor芒neo n茫o pode ser pensado sem considerar sua articula莽茫o com uma perp茅tua revolu莽茫o dos dispositivos de Estado e com uma guerra sem fim contra a “superpopula莽茫o excedente”. 脌 luz dessa articula莽茫o, podemos entender um pouco melhor a passagem de um horizonte de expectativas para o outro, na medida em que a revolu莽茫o j谩 dependia da guerra, que j谩 dependia da crise 鈥 a consuma莽茫o de um paradigma se confundindo com o estabelecimento do seguinte. Poder铆amos, portanto, conceber essa escans茫o em tr锚s paradigmas como um processo de sucessivos deslocamentos. A revolu莽茫o acabou por esvaziar as expectativas de transforma莽茫o radical mediadas pela destrui莽茫o do Estado, a guerra, as expectativas de transforma莽茫o orientadas pela autonomia nacional, e o paradigma da gest茫o das crises exauriu finalmente nossas expectativas de que os impasses do valor e do capital nos levariam a uma nova forma莽茫o social. 

“Quando observamos a passagem do paradigma revolucion谩rio para o paradigma da guerra e, em seguida, da crise, vemos que inversamente proporcional ao esvaziamento do futuro como lugar do n茫o experimentado 茅 o aumento de nossa cren莽a na capacidade do passado de guardar, na “tradi莽茫o dos oprimidos”, alguma coisa de in茅dito”.

Vale mencionar tamb茅m que podemos indicar um vetor inverso que acompanha essa era de expectativas decrescentes. Afinal, onde depositamos hoje nossas apostas no n茫o experimentado, sen茫o em nossas expectativas de futuro? Quando observamos a passagem do paradigma revolucion谩rio para o paradigma da guerra e, em seguida, da crise, vemos que inversamente proporcional ao esvaziamento do futuro como lugar do n茫o experimentado 茅 o aumento de nossa cren莽a na capacidade do passado de guardar, na “tradi莽茫o dos oprimidos”, alguma coisa de in茅dito. 

No mundo revolucion谩rio, o passado 茅 extremamente pr贸ximo do presente 鈥 茅 a tradi莽茫o, os “velhos costumes” 鈥 e, em contraponto com as expectativas radicais de futuro, n茫o guardava nada de novo. Sua equival锚ncia com o j谩 conhecido e experimentado significava que, ao romper com a ordem social atual, a revolu莽茫o tamb茅m quitaria nossa d铆vida com nossos antepassados e suas revolu莽玫es fracassadas. O 煤ltimo resqu铆cio dessa cren莽a num passado com o qual quitamos nossas d铆vidas por meio de uma a莽茫o in茅dita e radical, sempre por vir, talvez seja a famosa frase de Fidel Castro: “a hist贸ria me absolver谩”. Coisas acontecem 鈥 trag茅dias e massacres 鈥, mas, do ponto de vista da justi莽a instaurada por uma nova ordem social, esse passado n茫o retornar谩 para nos assolar. 

O mundo da guerra j谩 come莽a a estabelecer uma nova rela莽茫o com o passado, produzindo, por exemplo, uma cis茫o entre a experi锚ncia e a mem贸ria. 脡 o que aponta Walter Benjamin em Experi锚ncia e Pobreza,17 quando nota a mudez dos soldados que retornam do front, incapazes de narrar o que viveram. N茫o 茅 脿 toa que a Primeira Guerra era conhecida, j谩 nos anos trinta, como a “煤ltima guerra”: a tarefa de evitar sua repeti莽茫o, mesmo a custos igualmente terr铆veis, j谩 se mostrava como uma forma de se orientar que poderia nos levar a uma nova ordem mundial. Auschwitz vem, por fim, selar essa nova rela莽茫o da modernidade com o passado, uma vez que o problema do campo de concentra莽茫o e do testemunho dos sobreviventes visa localizar, justamente, o n茫o-experimentado dentro do nosso espa莽o de experi锚ncia. Recuperando o que o trauma do exterm铆nio nos faria esquecer 鈥 o desconhecido, ainda vivo em nosso passado 鈥 ser铆amos capazes de evitar a repeti莽茫o do horror civilizat贸rio, ou seja, viver铆amos algo de in茅dito.

Hoje, por fim, em meio ao deserto de expectativas futuras, nosso investimento parece ter migrado, como nunca, para um passado que supomos se desdobrar em infinitos ramos, infinitas hist贸rias, de onde a cr铆tica “脿 contrapelo” poderia extrair, a partir da mem贸ria e do esquecimento, novas formas de vida 鈥 venham elas do passado dos povos dizimados pela coloniza莽茫o ou do socialismo dos 煤ltimos cento e cinquenta anos. Essa expectativa que surge de dentro da experi锚ncia, no entanto, apresenta seus pr贸prios paradoxos, na medida em que o passado persiste materialmente no presente 鈥 n茫o apenas na forma dos arquivos e documentos, mas da mem贸ria, dos la莽os pessoais e dos relatos entrela莽ados 脿 vida das pessoas 鈥, enquanto as expectativas de futuro, por conta do pr贸prio estatuto do porvir, tendem a se tensionar contra o presente e seus constrangimentos. 

A “pura luz” de Pasolini, que 茅 “sempre igual a outra luz”, s贸 produziria um horizonte comum por ser, em algum sentido, indiferente 脿s condi莽玫es materiais em diferentes lugares 鈥 茅 a justi莽a entendida como uma luz que ilumina todos os lugares a partir de lugar nenhum 鈥, enquanto a luz que o passado pode jogar sobre nossas vidas implica outro conceito de justi莽a, mais ligado 脿 repara莽茫o e 脿 restitui莽茫o, a cada lugar social, da heran莽a que lhe 茅 de direito. Nesse sentido, o n茫o experimentado que se codifica atrav茅s das expectativas de passados expropriados n茫o apenas se torna comprometido com as diferen莽as sociais que existiam anteriormente, como, por existir no presente atrav茅s de inscri莽玫es materiais, 茅 obrigado a se distribuir de acordo com as desigualdades sociais atuais. Nesse sentido, poder铆amos dizer que a politiza莽茫o do arquivo e da mem贸ria, aspecto marcante do nosso momento hist贸rico, assim como a retomada do pr贸prio ide谩rio revolucion谩rio, emerge como um efeito do paradigma da crise permanente, um deslocamento sobredeterminado pelas transforma莽玫es estruturais da 茅poca 鈥 e que consuma finalmente o cercamento da hist贸ria enquanto um bem escasso.

Hegelianismo perif茅rico

Como mencionamos, o que 茅 particularmente interessante na investiga莽茫o de Paulo Arantes a respeito desse novo tempo do mundo 茅 sua estrat茅gia de n茫o simplesmente opor a situa莽茫o contempor芒nea a um paradigma moderno anterior 鈥 contrapondo o momento progressista e o presentismo contempor芒neo 鈥, mas tom谩-lo como ind铆cio da estrutura subjacente dessa din芒mica hist贸rica como um todo. Isto significa simultaneamente reconhecer as bases estruturais desse processo, seu condicionamento na din芒mica socioecon么mica do capitalismo contempor芒neo 鈥 na crise do valor que acompanha a revolu莽茫o informacional, na irreversibilidade do desemprego cr么nico e na fal锚ncia do projeto desenvolvimentista 鈥 e, ao mesmo tempo, questionar como que as categorias do valor, do emprego e do progresso puderam desencadear, na origem da civiliza莽茫o ocidental moderna, o processo de “temporaliza莽茫o da hist贸ria”. Que tipo de acontecimento precisaria ter ocorrido para que se tornasse hegem么nica no Ocidente a experi锚ncia da hist贸ria como uma flecha no tempo, em que passado e futuro n茫o se retroalimentam harmonicamente? 

脡 a partir dessa quest茫o que podemos entender a abordagem de Paulo Arantes sobre a filosofia da hist贸ria hegeliana, que ele introduz a segunda parte de sua tese de doutorado, A ordem do tempo:

A maneira desenvolta, pela qual Hegel multiplica restri莽玫es a respeito de v谩rias sociedades, permite-nos avaliar o peso da evid锚ncia 鈥 doravante incontorn谩vel 鈥 com que a Hist贸ria se imp玫e como solo universal da experi锚ncia: como 茅 vis铆vel, em particular, ao longo da Introdu莽茫o e das primeiras se莽玫es das Li莽玫es sobre Filosofia da Hist贸ria, no invent谩rio das sociedades que escapam ao argumento do livro e no desvendamento dos princ铆pios que legitimam essa exclus茫o. O conceito de Hist贸ria, visto desta perspectiva, s贸 se precisa 脿 luz das inst芒ncias que recusa, como se a nova figura da Hist贸ria s贸 pudesse desenhar-se sobre o fundo neutro e indiferenciado da n茫o-Hist贸ria.18

A quest茫o da origem da historicidade moderna 鈥 e da sua especificidade 鈥 estava posta na pr贸pria origem da filosofia da hist贸ria, ainda que mascarada por toda esp茅cie de preconceito que podemos esperar de pensadores alem茫es dos s茅culos dezoito e dezenove. Apesar de todas as distor莽玫es conceituais 鈥 por exemplo, a refer锚ncia constante 脿 diferen莽a entre “civilizados” e “primitivos” 鈥, 茅 justamente essa quest茫o que leva Hegel, no come莽o de suas Li莽玫es de Filosofia da Hist贸ria, a dizer que existem condi莽玫es de possibilidade para a experi锚ncia da hist贸ria, como o clima, a geografia e o acesso a media莽玫es particulares. Citamos 鈥 n茫o omitindo o racismo patente do autor:

Arist贸teles h谩 muito tempo notou que o homem s贸 se volta ao universal, e 脿s coisas mais nobres, ap贸s ter satisfeito suas necessidades b谩sicas. Mas nem as zonas t贸rridas ou geladas permitem ao homem se mover livremente, ou adquirir suficiente recursos para permit铆-lo participar em interesses espirituais. Ele 茅 mantido num estado de insensibilidade; 茅 oprimido pela natureza, e n茫o pode se divorciar dela 鈥 o que 茅 condi莽茫o necess谩ria para o desenvolvimento de uma cultura espiritual superior. O poder dos elementos 茅 grande demais para o homem escapar de sua luta contra eles, ou para se tornar forte o suficiente para afirmar sua liberdade espiritual contra o poder da natureza.19

Duas teses se sobrep玫em nessa passagem: por um lado, uma tese sobre a exist锚ncia de condi莽玫es concretas e contingentes, sem as quais a passagem do tempo n茫o se transforma na experi锚ncia hist贸rica, por outro, uma absoluta ignor芒ncia 鈥 claramente conivente com o pior do excepcionalismo euroc锚ntrico e com sua “cultura espiritual superior” 鈥 quanto 脿s condi莽玫es de vida nas “zonas t贸rridas e geladas”, que s茫o aqui tratadas como casos dessa situa莽茫o extrema que manteria, por conting锚ncia espacial, os homens “num estado de insensibilidade”. 

Para al茅m da cr铆tica 脿 qualifica莽茫o absolutamente indefens谩vel que Hegel faz dos povos n茫o-europeus e 脿 sua incapacidade de reconhecer outras formas de negocia莽茫o com os constrangimentos do meio ambiente que n茫o a ideologia europ茅ia da domina莽茫o das for莽as da natureza, h谩 ainda a constata莽茫o de que, do ponto de vista privilegiado de nossa situa莽茫o atual, o diagn贸stico hegeliano funciona muito melhor se invertido. 脡 a sociedade moderna que n茫o foi “forte o suficiente para afirmar a sua liberdade espiritual contra o poder da natureza”, submetendo-se, na verdade, ao Capital como a uma segunda natureza. Mesmo o famoso argumento hegeliano de que as sociedades hist贸ricas s茫o superiores porque s茫o aquelas capazes de perecer 鈥 criando e destruindo formas de temporalidade que lhes s茫o pr贸prias 鈥 aparece aqui invertido, uma vez que o dom铆nio capitalista n茫o apenas se constr贸i como uma submiss茫o irrestrita 脿 “natureza” da auto-reprodu莽茫o do valor 鈥 mesmo que isso nos leve a cat谩strofes sociais e ecol贸gicas 鈥 como tamb茅m se mostra incapaz de ruir,20 consumando, na verdade, o fechamento derradeiro de qualquer experi锚ncia da universalidade concreta. 

Poder铆amos, assim, definir a estrat茅gia de leitura de Paulo Arantes como aquela que pensa a historicidade capitalista desde as sociedades sem hist贸ria. Estrat茅gia que nos permite reconhecer 鈥 como discutiremos em detalhes mais 脿 frente 鈥 o papel epistemol贸gico do “laborat贸rio brasileiro” e das periferias em geral em seu pensamento. Sigamos, por enquanto, a reconstru莽茫o invertida da rela莽茫o entre sociedades hist贸ricas e n茫o hist贸ricas.

De fato, devidamente substitu铆das por condi莽玫es materiais de outra ordem, menos naturalizadas, mas igualmente atreladas ao espa莽o social, encontramos na filosofia de Hegel as bases para um outro tipo de materialismo hist贸rico. Uma teoria que n茫o busca afirmar apenas que a mat茅ria tem hist贸ria 鈥 ou seja, que mesmo n茫o apresentando qualquer vest铆gio disso, as mercadorias s茫o marcadas pelo processo social de produ莽茫o de sua 茅poca 鈥 mas tamb茅m que a hist贸ria tem mat茅ria, isto 茅, que a experi锚ncia da hist贸ria depende de condi莽玫es sociais objetivas, que podem faltar ou ser mal distribu铆das 鈥 como a qualidade do tempo livre, a submiss茫o 脿 viol锚ncia estrutural ou a fome. 脡 um sentido completamente diferente para a f贸rmula “a hist贸ria 茅 a hist贸ria da luta de classes”, que inaugura antes a possibilidade de que ter ou n茫o ter hist贸ria, estar ou n茫o estar na hist贸ria, defina um outro tipo de divis茫o social igualmente calcada em condi莽玫es reais e determinadas.

脡 assim que podemos retornar 脿 quest茫o do “combust铆vel” da m谩quina hist贸rica moderna, que agora gira em falso. Novamente na esteira de Hegel, para quem a experi锚ncia da hist贸ria 茅 fruto de uma articula莽茫o particular e contingente entre condi莽玫es espaciais 鈥 geogr谩ficas e sociais 鈥 e a experi锚ncia do tempo, Paulo Arantes sugere, em O novo tempo do mundo, que devemos buscar uma explica莽茫o para a din芒mica temporal da modernidade na rela莽茫o espacial que a economia capitalista permitiu se estabelecer entre a Europa e suas col么nias no Novo Mundo. 

Autores como Weber e o pr贸prio Koselleck apontam para o papel da expans茫o ultramarina no processo de temporaliza莽茫o da hist贸ria, mas isso n茫o 茅 suficiente por si s贸, uma vez que ainda 茅 preciso explicar por que o encontro com esse territ贸rio at茅 ent茫o desconhecido pelos europeus n茫o foi vivido, na 茅poca, como uma abertura para o futuro, e sim como a consuma莽茫o do fim dos tempos. Crist贸v茫o Colombo, por exemplo, retorna de sua viagem em 1492 tendo escrito um livro de profecias em que determinava que, em menos de 150 anos, chegaria o Ju铆zo Final.21 A expans茫o do dom铆nio europeu por si s贸 n茫o seria capaz de inaugurar uma transforma莽茫o t茫o radical na experi锚ncia do tempo hist贸rico 鈥 como tampouco o fez a ci锚ncia moderna. Newton e Francis Bacon, para citar os mais ilustres parteiros da ci锚ncia experimental e matematizada, tamb茅m entendiam a expans茫o do conhecimento como sinais da era em que o livro do mundo se abriria para o homem, consumando o tempo crist茫o.22

Ainda que componentes essenciais, nem expans茫o territorial nem ci锚ncia moderna poderiam fazer o que apenas a consolida莽茫o de uma economia-mundo foi capaz de produzir: a experi锚ncia da “simultaneidade do n茫o-simult芒neo”, a crescente defini莽茫o de uma zona de coer锚ncia comum entre fragmentos do mundo t茫o incomensur谩veis, culturalmente e socialmente, que sua justaposi莽茫o n茫o poderia sen茫o produzir a ilus茫o de 贸tica de que o tempo se acelerava. Uma esp茅cie de vers茫o materialista da g锚nese do tempo a partir das inconsist锚ncias do espa莽o:

Essa mesma brisa marinha que impulsionou o grande transbordamento capitalista da economia-mundo europeia tamb茅m ajudou a disparar a flecha do tempo braudeliano do mundo, orientado segundo uma in茅dita linha do horizonte, cujo ponto de fuga (…) se apresenta como um novo tempo em que a diferen莽a entre experi锚ncia e expectativa n茫o para de crescer.23

O pr贸prio Braudel, no terceiro volume de Civiliza莽茫o Material, Economia e Capitalismo (Martins Fontes, 2009), j谩 visava a precisar a especificidade da economia enquanto princ铆pio sintetizador de um mundo: diferente da forma social imperial ou comunit谩ria, a troca econ么mica mercantil permite a circula莽茫o entre regimes de troca e cultura d铆spares entre si, sem homogeneiz谩-los. Sem a unidade econ么mica da circula莽茫o mercantil, as placas tect么nicas do tempo t茅cnico e social europeu e dos demais lugares do globo n茫o seriam justapostas como duas faces de um mesmo processo, n茫o produziriam a fric莽茫o espacial que define a temporalidade hist贸rica moderna. 

Quanto 脿s consequ锚ncias da constitui莽茫o da economia-mundo, 茅 suficiente notar aqui que a expans茫o do mercado capitalista implica na transforma莽茫o das col么nias de margens de um sistema em sua periferia. A diferen莽a 茅 total. Como apontam Wallerstein e Karatani,24 as margens de um sistema-mundo imperial s茫o integradas em termos de extra莽茫o de riqueza e coer莽茫o 鈥 cabe ao poder do centro imperial se fazer valer nos confins de seu dom铆nio, por meio da din芒mica da pilhagem e da prote莽茫o. Por outro lado, a periferia do sistema-mundo capitalista tamb茅m participa do seu regime de produ莽茫o e consumo 鈥 e, portanto, se reorganiza social e economicamente para conseguir vender no mercado internacional aquilo que produz, sob pena de n茫o conseguir garantir sua pr贸pria reprodu莽茫o social. Em outras palavras, a periferiza莽茫o implica a mercantiliza莽茫o n茫o apenas do sistema extrativista, mas tamb茅m do trabalho e das condi莽玫es de produ莽茫o, reprodu莽茫o e consumo nas col么nias. 

Como veremos a seguir, 茅 justamente a generaliza莽茫o paradoxal da sociedade do trabalho que, disseminando os regimes h铆bridos de acumula莽茫o nas periferias por todo o globo, levaria 脿 satura莽茫o do tempo hist贸rico moderno. Por esse ponto de vista, a periferiza莽茫o das col么nias 茅 condi莽茫o tanto da temporaliza莽茫o da hist贸ria quanto de seu atual limite.

A brasilianiza莽茫o do mundo

Uma primeira forma de testar essa hip贸tese sobre a g锚nese espacial25 do tempo hist贸rico moderno seria retra莽ar as rela莽玫es entre centro e periferia em cada um dos tr锚s paradigmas que vimos anteriormente, culminando no mundo contempor芒neo. De maneira breve e extremamente simplificada, poder铆amos escandir a hist贸ria do capitalismo de mercado 鈥 contempor芒neo do paradigma revolucion谩rio 鈥 como aquela em que o centro europeu vivia a contradi莽茫o burguesa de querer revolucionar suas rela莽玫es sociais 脿s custas do estabelecimento do novo regime colonial 鈥 como a contradi莽茫o entre a Revolu莽茫o Francesa e a Haitiana bem exemplifica. A hist贸ria do capitalismo monopolista, em que a guerra funcionou como principal forma de media莽茫o e solu莽茫o das novas distribui莽玫es de poder em escala global, seria o momento em que os valores do centro foram importados para as periferias do capitalismo 鈥 produzindo contradi莽玫es internas aos pr贸prios movimentos de autodetermina莽茫o e soberania nacional, presos entre a soberania pol铆tica e a submiss茫o ao mercado internacional, entre as estruturas coloniais de coer莽茫o e disciplina e a cultura e valores do centro burgu锚s. O que nos traz 脿s rela莽玫es entre centro e periferia no capitalismo contempor芒neo, definido anteriormente pelo paradigma da crise.

Em seu texto seminal A fratura brasileira do mundo,26 Paulo Arantes aponta um sintoma social curioso, uma express茫o paradoxal que come莽a a ser adotada por diferentes soci贸logos e urbanistas a partir dos anos 1980 para descrever o que se passa nas novas crises sociais dos pa铆ses ditos desenvolvidos, em especial no desmonte do estado de bem-estar social e na crise urbana que o acompanha: a ideia de uma brasilianiza莽茫o do mundo. Reconstruindo esses diferentes diagn贸sticos de uma “terceiro-mundiza莽茫o” das grandes metr贸poles, que se confrontam cada vez mais com uma fratura social irrepar谩vel que renasce dentro do centro do capitalismo, o fil贸sofo sugere uma invers茫o no vetor que definiu a rela莽茫o de avan莽o do centro sobre a periferia ao longo do s茅culo XX: 

Que eu saiba, at茅 agora ningu茅m se atreveu a sugerir que o cora莽茫o do Imp茅rio Americano com o tempo tamb茅m se converter谩 em uma 脥ndia, encimada por uma B茅lgica. Todavia 茅 isso mesmo que a tese da brasilianiza莽茫o dos Estados Unidos pretende insinuar. Mais exatamente, uma dualiza莽茫o tamanha da sociedade que s贸 encontra paralelo no pa铆s cl谩ssico das clivagens inapel谩veis, algo como o desfecho metaf贸rico natural para sensa莽茫o generalizada de 鈥減olariza莽茫o dickensiana鈥 nos centros emblem谩ticos da riqueza global, como no limiar da primeira industrializa莽茫o, na vis茫o rom芒ntica inglesa da sociedade dividida entre 鈥渄uas na莽玫es鈥 antag么nicas. Seja como for, o fato 茅 que o espantalho brasileiro acabou despontando no horizonte de um novo dualismo social on the rise.27

No entanto, o surgimento do “espantalho brasileiro” no horizonte de expectativas da crise civilizat贸ria moderna 鈥 a medida em que essa se defronta com cidades partidas ao modo da fratura colonial que fundou a pr贸pria modernidade 鈥 n茫o implica, para Paulo Arantes, na tese de uma prolifera莽茫o do atraso do dito “subdesenvolvimento”, contaminando os pa铆ses centrais. Ao contr谩rio, retomando implicitamente a estrat茅gia j谩 presente em A Ordem do Tempo, o fil贸sofo l锚 a crescente periferiza莽茫o do centro como mais um sinal do papel determinante das periferias sobre o pr贸prio desenvolvimento da hist贸ria da modernidade.28 A forma莽茫o social perif茅rica, para usar o jarg茫o hegeliano, d谩 a verdade das sociedades desenvolvidas porque, em 煤ltima inst芒ncia, 茅 nela que se forma o laborat贸rio das t茅cnicas de controle e explora莽茫o do trabalho mais adequadas ao pr贸prio desenvolvimento capitalista contempor芒neo.29

Nesse sentido, a homogeneiza莽茫o das l贸gicas de organiza莽茫o social prometida pela expans茫o imperialista do s茅culo XX n茫o 茅 simplesmente substitu铆da pela fragmenta莽茫o: em vez disso, ela re-emerge de dentro da “n茫o hist贸ria”, nos obrigando a reconhecer que as sociedades coloniais 鈥 em que se estabeleceram, desde a origem da modernidade, regimes de produ莽茫o h铆bridos, dualidades sociais violentas e jogos complexos entre legalidade e ilegalidade 鈥 agora despontam como a vanguarda do avan莽o capitalista, o pr贸prio motor do processo hist贸rico. 脡 assim que os antrop贸logos sul-africanos Jean e John Comaroff descrevem o “devir-periferia” do mundo em seu Theory from the South (Routledge, 2011):

Queremos mais do que meramente notar que muitos dos aspectos emergentes e das contradi莽玫es escondidas da modernidade capitalistas eram t茫o percept铆veis nas col么nias quanto nas metr贸poles 鈥 ou que as primeiras eram muitas vezes o local de produ莽茫o para os modos de vida das segundas. O que queremos sugerir, al茅m disso, 茅 que os processos hist贸ricos mundiais contempor芒neos est茫o alterando as geografias da rela莽茫o centro-periferia tal como a recebemos, realocando para o Sul n茫o apenas alguns dos mais inovadores e energ茅ticos modos de produzir valor, mas a for莽a motriz do capitalismo contempor芒neo, tanto como forma莽茫o material quanto cultural.30

Completando nosso breve esquema das rela莽玫es entre centro e periferia ao longo da modernidade, podemos portanto sugerir que o dito “fim do futuro” 鈥 diagnosticado e sentido mais severamente desde o centro das sociedades desenvolvidas 鈥 equivale a um retorno 脿 superf铆cie da rela莽茫o que constituiu a abertura desse mesmo futuro. Se o tempo hist贸rico moderno nasce da fric莽茫o promovida pela economia-mundo entre centro e periferia e da tradu莽茫o desse conflito espacial em uma din芒mica temporal rumo ao n茫o-experimentado 鈥 custeada pela explora莽茫o colonial 鈥, ent茫o nada mais angustiante para a experi锚ncia hist贸rica do que a expans茫o das formas de organiza莽茫o perif茅ricas como modelo mesmo de reprodu莽茫o social do capitalismo. Longe de simbolizar um mero recuo dos valores avan莽ados do Ocidente, a entrada em cena da fratura social perif茅rica ressignifica esses valores, esvazia seu sentido porque o consuma 鈥 tal como descreve Pasolini em As cinzas de Gramsci, quando reconhece que a exist锚ncia de uma massa italiana sem hist贸ria acarreta tamb茅m uma nova experi锚ncia da hist贸ria: a hist贸ria como uma mera propriedade, um tipo de bem cultural. O que, por sua vez, torna sua luz in煤til.

A esquerda fora de lugar

Em sua recente revis茫o da obra de Paulo Arantes 鈥 parte do livro Dar corpo ao imposs铆vel (Aut锚ntica, 2019), Vladimir Safatle se prop玫e resgatar o aspecto pol铆tico da filosofia arantiana, defendendo que h谩 uma contradi莽茫o entre o diagn贸stico cr铆tico de Paulo Arantes sobre a satura莽茫o do tempo moderno e sua rejei莽茫o expl铆cita da filosofia, e em especial, da filosofia pol铆tica. Para Safatle, haveria em sua obra “uma filosofia impl铆cita”, comprometida com a “lat锚ncia do existente”, com a for莽a pol铆tica da plebe que permaneceria uma pot锚ncia mesmo sob o nosso predicamento atual. Retomando os argumentos de O ressentimento da dial茅tica (Paz & Terra, 1996), estudo de Paulo Arantes a respeito das origens sociais da dial茅tica hegeliana, Safatle l锚 o niilismo arantiano como express茫o expl铆cita de um compromisso velado com a negatividade potente dos subalternos, aspecto que seria constitutivo da dial茅tica hegeliana desde sua origem:

Pulsa no cerne da dial茅tica uma energia negativa das classes subalternas que n茫o 茅 ressentimento, nem moral de escravo, muito menos idealiza莽茫o conservadora da origem (como Arantes imputa a Heidegger e seu desejo de permanecer na prov铆ncia) mas que 茅 ast煤cia dos que nunca esquecem seu desejo de emancipa莽茫o.31

A leitura proposta por Safatle reproduz uma das principais opera莽玫es que observamos na filosofia pol铆tica que ousou revitalizar o pensamento emancipat贸rio a partir de um confronto com o capitalismo de crise, a saber, a tentativa de ontologiza莽茫o do comum.32 Dentro de seu projeto de recupera莽茫o da teoria adorniana, essa opera莽茫o aparece principalmente como uma equival锚ncia de princ铆pio entre a exclus茫o social e a for莽a universal da pol铆tica. 脡 verdade que tanto a teoria hegeliana da universalidade concreta, quanto sua retomada pelo jovem Marx, com seu conceito de proletariado, realmente apostam na exist锚ncia de uma parte do todo social que, por ser despojada de toda identidade pr贸pria, 茅, por isso mesmo, potencialmente universal e comum. Mas, nem para Hegel nem para Marx, a conflu锚ncia entre a despossess茫o e a pot锚ncia pol铆tica s茫o necess谩rias, sendo pass铆veis de desarticula莽茫o em determinados contextos e condi莽玫es concretas. O que observamos na leitura de Safatle 茅 que sua resposta a essa desarticula莽茫o hist贸rica entre as condi莽玫es sociais dos exclu铆dos e sua voca莽茫o 脿 universalidade 茅 salvar essa pot锚ncia ao transp么-la para um n铆vel mais fundamental, imune 脿s transforma莽玫es sociais.

N茫o 茅 dif铆cil compreender por que a filosofia pol铆tica poderia adquirir um novo papel nas an谩lises e estrat茅gias da esquerda: o lugar que ela vem ocupar se esclarece quando articulamos o diagn贸stico de periferiza莽茫o do mundo com as transforma莽玫es na composi莽茫o social que acompanham o capitalismo de crise. Nas 煤ltimas d茅cadas, a dita “terceira revolu莽茫o industrial” produziu altera莽玫es profundas nas rela莽玫es entre capital e trabalho, e uma das suas principais consequ锚ncias 茅 que hoje percebemos que a sociabilidade capitalista parece cada vez mais prescindir da organiza莽茫o do mundo do trabalho para garantir a organiza莽茫o dos processos de valoriza莽茫o.33

N茫o 茅 脿 toa que nos referimos ao “mundo” do trabalho: atrav茅s de um lento e doloroso processo, que durou s茅culos, o trabalho se transformou numa forma de s铆ntese social na modernidade.34 Consideremos, esquematicamente, a rela莽茫o entre os trabalhadores manuais 鈥 aqueles que contribuem para o processo de produ莽茫o majoritariamente pela quantidade do trabalho que realizam 鈥, os trabalhadores intelectuais 鈥 aqueles que contribuem primariamente atrav茅s do aspecto qualitativo de suas atividades 鈥 e os desempregados 鈥 aqueles que contribuem para o trabalho com sua exist锚ncia, enquanto consumidores de mercadorias e enquanto ex茅rcito de reserva de trabalho. O mundo do trabalho 茅 aquele em que essas tr锚s categorias se refor莽am mutuamente, encontram uma coer锚ncia comum por meio de uma certa positividade do trabalho, 脿s custas 鈥 茅 preciso dizer 鈥 do trabalho dom茅stico e do trabalho escravo, ambos pol铆tica e economicamente essenciais para o capitalismo, ainda que mantenham outras rela莽玫es o valor e o capital. Dessa forma, trabalhadores manuais se enxergam como construtores da sociedade, trabalhadores intelectuais se reconhecem socialmente na medida em que se espelham no trabalho manual, e os desempregados 鈥 enquanto o regime de acumula莽茫o precisava empregar cada vez mais pessoas para extrair mais-valia 鈥 se entendem como trabalhadores em potencial. O desemprego aparece, assim, como o intervalo entre dois empregos. 

Compare essa din芒mica com a que vem progressivamente se estabelecendo desde os anos 1970. Trabalhadores manuais s茫o cada vez mais amea莽ados pela automa莽茫o e pelo avan莽o cient铆fico; o que os coloca em conflito com os trabalhadores intelectuais 鈥 que, por sua vez, se reconhecem como a nova base da classe trabalhadora, dado que o conhecimento adquire um novo papel central nos processos de explora莽茫o e valoriza莽茫o. Os desempregados, por sua vez, sem perspectiva de serem reabsorvidos pelo processo de produ莽茫o cada vez mais automatizado, negociam com os limites entre o trabalho formal e o informal, a legalidade e a ilegalidade, com a integra莽茫o social e a obsolesc锚ncia. Nesse contexto de desemprego cr么nico, onde os la莽os comunit谩rios e familiares se tornam ainda mais cruciais, explodem as contradi莽玫es do trabalho dom茅stico e de reprodu莽茫o social, assim como as formas de trabalho escravo e semi-escravo voltam a ser observadas 脿 plena luz do dia. 

Aqui, 茅 o emprego formal que vai se tornando uma exce莽茫o numa vida essencialmente desempregada. E, por mais que do ponto de vista particular do trabalho intelectual 鈥 que, pela pr贸pria natureza do trabalho centrado no conhecimento e na cultura, tem clareza dos processos de expropria莽茫o aos quais est谩 submetido 鈥, ainda pare莽a existir um pano de fundo comum entre as fra莽玫es da classe trabalhadora, quando consideramos as rela莽玫es conflituosas entre os interesses e formas de reprodu莽茫o social de cada um desses diferentes fragmentos do mundo do trabalho, vemos que n茫o h谩 mais homogeneidade social entre eles. Como resume Slavoj 沤i啪ek:

O proletariado est谩, assim, dividido em tr锚s, cada parte em tens茫o com as demais: intelectuais cheios de preconceitos culturais contra os trabalhadores reacion谩rios, trabalhadores manuais com um 贸dio populista contra os intelectuais e os exclu铆dos, e os exclu铆dos em antagonismo com a sociedade enquanto tal.35

脡 em resposta a essa nova fratura no tecido social 鈥 na qual trabalhadores manuais e intelectuais lutam entre si pelo sentido do mundo do trabalho enquanto o desemprego cr么nico deixa grandes massas 脿 margem dos ventos da hist贸ria 鈥 que a filosofia pol铆tica contempor芒nea se incumbiu da tarefa de encontrar um princ铆pio ontol贸gico que garantisse, para al茅m da heterogeneiza莽茫o social conflituosa que acompanha a periferiza莽茫o, a comensurabilidade entre as fra莽玫es das classes populares. 

脡 curioso, por exemplo, como podemos reconhecer essa mesma preocupa莽茫o em autores t茫o diversos como Ernesto Laclau, Chantal Mouffe e Antonio Negri. Laclau e Mouffe, por exemplo, elaboraram a teoria do populismo como uma resposta expl铆cita 脿 crise da classe trabalhadora como sujeito revolucion谩rio. Eles reconhecem, por um lado, que n茫o h谩 uma coes茫o imanente 脿s classes populares a ser simplesmente reconhecida e mobilizada pela estrat茅gia socialista. Ao contr谩rio, defendem a necessidade de construirmos essa unidade, o que equivaleria 脿 constru莽茫o do pr贸prio “povo”. No entanto, o pano de fundo de sua proposta 茅 uma teoria da discursividade 鈥 extra铆da diretamente do estruturalismo franc锚s 鈥 que desconsidera a possibilidade de que n茫o haja um circuito cultural comum permitindo a consolida莽茫o de um “equivalente geral” entre as diferentes demandas sociais particulares. Para eles, a crise da sociabilidade moderna descortina um campo indeterminado, cuja estrutura 茅 dada pela psican谩lise e pela filosofia: na crise da sociedade do trabalho, o que existe s茫o demandas sociais plurais 鈥 que, enquanto demandas, seriam ontologicamente comensur谩veis, e portanto, unific谩veis entre si sob um l铆der ou uma palavra de ordem adequada.36

“Est谩 eliminada de sa铆da, para Laclau, Negri e mesmo Safatle, a possibilidade de que a desintegra莽茫o da sociedade do trabalho e a nova s铆ntese social pelo desemprego trave a pr贸pria din芒mica moderna que associa trabalho e um novo futuro. No entanto, 茅 exatamente esse o ponto central do argumento de Paulo Arantes”.

Ainda que Negri seja o primeiro a criticar o “kantismo” de Laclau 鈥 isto 茅, o pressuposto de que haveria uma raz茫o transcendental, baseada na estrutura mesma da discursividade que garantiria a possibilidade de uni茫o de demandas sociais heterog锚neas por meio de uma narrativa comum 鈥, podemos reconhecer o mesmo pressuposto, ainda que com outros compromissos filos贸ficos, em sua teoria da multid茫o. Afinal, para defender que as diversas lutas de resist锚ncia contra o Imp茅rio, mesmo permanecendo aut么nomas entre si, contribuem indelevelmente para o mesmo objetivo anticapitalista, Negri depende da suposi莽茫o de que a vida social imediata, por seu pr贸prio empuxo criativo, j谩 imbuiria essas frentes de luta com um certo acesso ao “comum”. Para Laclau, continuamos podendo contar com um pano de fundo comum para a pol铆tica porque toda demanda social 茅 uma demanda 鈥 e, sendo apenas isso, a aus锚ncia de algo, todas as demandas seriam estruturalmente compat铆veis entre si 鈥 enquanto que, para Negri, tamb茅m podemos manter esse mesmo pressuposto porque toda demanda social 茅 social 鈥 isto 茅, uma manifesta莽茫o da pot锚ncia comum inerente 脿 vida 鈥 e portanto tamb茅m formalmente compat铆vel com as demais lutas contempor芒neas.

A leitura que Safatle faz da posi莽茫o de Paulo Arantes vai na mesma dire莽茫o: 茅 filosoficamente necess谩rio que haja, por baixo da desintegra莽茫o social contempor芒nea, um substrato comum 鈥 a negatividade potente daqueles que “nunca esquecem seu desejo de emancipa莽茫o” 鈥 e que, nesse sentido, j谩 garantem a exist锚ncia de uma coes茫o social a ser posteriormente politizada pela esquerda. Est谩 eliminada de sa铆da, para Laclau, Negri e mesmo Safatle, a possibilidade de que a desintegra莽茫o da sociedade do trabalho e a nova s铆ntese social pelo desemprego trave a pr贸pria din芒mica moderna que associa trabalho e um novo futuro. No entanto, 茅 exatamente esse o ponto central do argumento de Paulo Arantes: o cercamento da hist贸ria revela que tanto o neoliberalismo quanto o progressismo esquerdista s茫o ambos forma莽玫es reativas, preocupadas com a preserva莽茫o do seu mundo frente a desintegra莽茫o social.37

Em vez de nos ajudar a reconhecer que nossos ideais de esquerda eram mais dependentes do que pens谩vamos das garantias de coes茫o social que o capitalismo nos prometeu durante s茅culos 鈥 coes茫o violenta, estrutural, mediada pelo trabalho, mas que no entanto sempre prepararia o terreno log铆stico, psicol贸gico e cultural para que n贸s posteriormente encaminh谩ssemos politicamente esse descontentamento 鈥, a filosofia 茅 chamada para assegurar que, onde esse processo de homogeneiza莽茫o social agora se desfaz, h谩 na verdade uma abertura, um caminho ainda mais curto entre a despossess茫o e a unifica莽茫o dos interesses populares. Em suma, a “ontologia” vem substituir a reavalia莽茫o da magnitude das tarefas te贸ricas, ps铆quicas e organizacionais que qualquer empreendimento voltado ao igualitarismo precisaria encarar hoje. 

Incapazes de olhar o mundo desde a sua periferia sem hist贸ria, a esquerda intelectual 鈥 parte da fra莽茫o cultural da classe trabalhadora, e, portanto, de sua vis茫o distorcida dos limites dos “comuns culturais” 鈥 repete, por fim, o gesto moderno fundador de depositar suas esperan莽as de um futuro n茫o experimentado no suor e no sangue de um “outro” que, al茅m de sobreviver 脿 cat谩strofe moderna, precisaria ainda garantir o sentido da vida de todos n贸s.

O pudor de um intelectual do holoceno

Em uma palestra recente, intitulada “Por que fil贸sofo hoje?”,38 parte de uma confer锚ncia que celebrou os 25 anos da publica莽茫o de Filosofia e Vida Nacional, Paulo Arantes brincou com a plat茅ia ao falar do per铆odo em que fez sua forma莽茫o intelectual: “no meu tempo鈥 porque sou um pesquisador do tempo do holoceno, n茫o como voc锚s”. O papel dessa consci锚ncia 茅 essencial para entender a posi莽茫o do fil贸sofo 鈥 que, justamente, n茫o se considera um fil贸sofo, apenas um professor.

“Encontramos na obra de Paulo Arantes uma tentativa de dar conta da maneira como os processos de constitui莽茫o de uma elite intelectual paulista 鈥 em uma tensa dial茅tica com o conhecimento produzido na Europa, em especial na Fran莽a, onde Arantes fez seu doutorado 鈥 contribuiu para o apagamento das tarefas pol铆ticas do pensamento frente aos desafios da sociedade fraturada que j谩 caracterizava o Brasil desde muito antes da ditadura”.

Tal como Pasolini, que encontrou no modo confessional crist茫o uma forma de se incluir nos diagn贸sticos de 茅poca que produziu, o projeto de Paulo Arantes situa a pr贸pria filosofia dentro da an谩lise das contradi莽玫es e transforma莽玫es do tempo hist贸rico. Do Sentimento da dial茅tica, de 1992, passando por Um departamento franc锚s de ultramar, de 1994, at茅 o Sentido da forma莽茫o, de 1997, encontramos em sua obra uma tentativa de dar conta da maneira como os processos de constitui莽茫o de uma elite intelectual paulista 鈥 em uma tensa dial茅tica com o conhecimento produzido na Europa, em especial na Fran莽a, onde Arantes fez seu doutorado 鈥 contribuiu para o apagamento das tarefas pol铆ticas do pensamento frente aos desafios da sociedade fraturada que j谩 caracterizava o Brasil desde muito antes da ditadura. 

A l贸gica cultural das sociedades perif茅ricas 鈥 como bem sabia Machado de Assis 鈥 n茫o 茅 aquela que se organiza em oposi莽茫o ao centro, mas aquela que desenvolve estrat茅gias para conciliar a periferia e o centro da pr贸pria periferia, as elites econ么micas e culturais que funcionam como sat茅lites do poder e ideologia do centro desenvolvido. N茫o bastaria, portanto, para construir um observat贸rio perif茅rico da crise do capitalismo, simplesmente se situar em territ贸rio brasileiro: 茅 necess谩rio ainda mapear, dentro desse espa莽o, a diferen莽a entre a “vida nacional” que 鈥 material e culturalmente 鈥 reproduz as expectativas do pensamento americano e europeu, e o pensamento que, persistindo na trilha da emancipa莽茫o universal, ainda assim se permite ser iluminado pelo caput mortuum do progressismo intelectual.39

脡 assim que podemos dar conta, talvez, do estilo ao mesmo tempo despretensioso e erudito, ecl茅tico mas cheio de pudor com sua pr贸pria desenvoltura, com que Paulo Arantes elabora seu pensamento. N茫o 茅 uma “filosofia impl铆cita”, silenciosa, mas sua disposi莽茫o para ser descentrado pela perspectiva perif茅rica 鈥 isto 茅, para ser absorvido pelos processos j谩 desencantados com as promessas progressistas 鈥 que informa a prud锚ncia com que o pensador se abst茅m de dizer por onde passam as possibilidades pol铆ticas do momento, sob o risco de transform谩-las em novo combust铆vel da m谩quina hist贸rica vacilante. Nesse sentido, talvez possamos dizer que n茫o se trata de “niilismo”, mas de vergonha.

Preso na contradi莽茫o 铆ntima que visitamos em As Cinzas de Gramsci, 茅 a pr贸pria vivacidade espiritual do exerc铆cio de se confrontar com o novo tempo do mundo que situa Paulo Arantes fora do mundo que ele insiste em anunciar. De fato, n茫o cabe a ele reconhecer-se como um fil贸sofo 鈥 cabe a n贸s.


Gabriel Tupinamb谩 茅 psicanalista, pesquisador de p贸s-doutorado em filosofia (UFRJ) e coordenador do C铆rculo de Estudos da Ideia e da Ideologia.

Notas

Notas
1Pier Paolo Pasolini, Poemas (Cosac Naify, 2015).
2”Entre os dois mundos, a tr茅gua em que n茫o estamos” (2005, p.63).
3Pasolini, Poemas (Cosac Naify, 2005), p. 69.
4Pier Paolo Pasolini, Poemas (Ass铆rio & Alvim, 2005).
5Pasolini, Poemas (Ass铆rio & Alvim, 2005), p. 163鈥165.
6Reinhart Koselleck, Futuro passado: contribui莽茫o 脿 sem芒ntica dos tempos hist贸ricos (Contraponto, 2006), p. 305鈥328.
7Paul Virilio, Speed & Politics (Semiotext(e), 1986).
8Hito Steyerl, Em queda livre: um experimento mental em perspectiva vertical, (Arte & Ensaios, n. 33, 2017). Para uma contextualiza莽茫o mais geral da obra de Hito Steyerl, ver Luisa Marques, Hito Steyerl: Media莽玫es(disserta莽茫o, 2017).
9Paulo Arantes, 鈥淥 novo tempo do mundo: a experi锚ncia da hist贸ria numa era das expectativas decrescentes”, em Paulo Arantes, O novo tempo do mundo (Boitempo, 2014).
10Eric Hobsbawm, A era das revolu莽玫es: 1789鈥1848 (Paz & Terra, 2012)
11A rela莽茫o entre cristianismo e seculariza莽茫o moderna, e suas consequ锚ncias pol铆ticas contempor芒neas, 茅 discutida de forma muito interessante no texto de Alyne Costa Por uma verdade capaz de imprever o (fim) do mundo, apresentado no encontro do GT Ontologias Contempor芒neas em Porto Alegre, Novembro de 2019.
12Eric Hobsbawm, A era do Capital: 1848鈥1875 (Paz & Terra, 2012).
13Uma an谩lise da guerra como paradigma de pensamento no s茅culo vinte pode ser encontrada em Alain Badiou, O s茅culo (Ideias & Letras, 2005).
14Um贸timo balan莽o dessa posi莽茫o pode ser encontrado em Allan Hillani, Na urg锚ncia da cat谩strofe: viol锚ncia e capitalismo (Gramma, 2018).
15Jean-Pierre Dupuy, Economy and the Future (Michigan State University Press, 2014).
16Kojin Karatani, Structure of World History (Duke University Press, 2014).
17Walter Benjamin, Obras escolhidas I: magia e t茅cnica, arte e pol铆tica (Brasiliense, 2012), p. 123.
18Paulo Arantes, Hegel: A ordem do tempo (Polis, 2000), p. 187.
19G.W.F. Hegel, Lectures on the Philosophy of World History (Oxford University Press, 2019), p. 130.
20Silvia Bezerra e Joelton Nascimento fazem um exerc铆cio de pensar a impossibilidade de transi莽玫es hist贸ricas no capitalismo em sua apresenta莽茫o A Passagem (2018).
21Marilena Chau铆, 鈥淧rofecias e tempo do fim鈥, em Adauto Novaes (ed.), A descoberta do homem e do mundo (Companhia das Letras, 1998), p. 453鈥505.
22Paolo Rossi, Francis Bacon: From Magic to Science. (University of Chicago Press, 1968).
23Paulo Arantes, O novo tempo do mundo (Boitempo, 2014), p. 48.
24Kojin Karatani, The Structure of World History (Duke Press, 2014)
25Adotamos aqui a divis茫o esquematizada por Fredric Jameson, em um artigo dedicado aos problemas da espacialidade na hist贸ria do capitalismo. Fredric Jameson, Mapeamento Cognitivo (1983).
26Paulo Arantes, Zero 脿 esquerda (Conrad, 2004).
27Paulo Arantes, Zero 脿 esquerda, p. 34.
28Paulo Arantes radicaliza, aqui, a tese j谩 proposta por Chico de Oliveira em seu famoso O ornitorrinco (Boitempo, 2003).
29Um estudo detalhado da “condi莽茫o perif茅rica”, entendida como estrutura espacial do capitalismo de crise, pode ser encontrado no trabalho A condi莽茫o perif茅rica: uma cr铆tica da economia pol铆tica do espa莽o em paralaxe, de Thiago Canettieri.
30Jean Comaroff e John Comaroff, Theory from the South: How Europe is Evolving Toward Africa (Routledge, 2011), p. 25.
31Vladimir Safatle, Dar corpo ao imposs铆vel: o sentido da dial茅tica a partir de Theodor Adorno (Aut锚ntica, 2019), p. 260.
32Para uma leitura alternativa, mas que tamb茅m confronta a crise contempor芒nea com os novos rumos da filosofia, ver a tese de doutorado O fim do futuro 鈥 o tempo das metamorfoses: o que pode a filosofia? e o artigo Esgotamento do mundo atual: as condi莽玫es materiais da reflex茫o sobre mundos poss铆veis, ambos de Rafael Saldanha.
33Dediquei outro trabalho 脿 discuss茫o pormenorizada desse ponto, e suas rela莽玫es com a pol铆tica de esquerda: The unemployable and the generic: rethinking the commons in the communist hypothesis.
34Kathi Weeks, The Problem with Work: Feminism, Marxism, Antiwork Politics, and Postwork Imaginaries (Duke Press, 2011).
35Slavoj 沤i啪ek, Primeiro como trag茅dia, depois como farsa (Boitempo, 2009), p. 134.
36Um 贸timo balan莽o da teoria do populismo, em um confronto com a condi莽茫o perif茅rica brasileira, pode ser encontrado no trabalho de Maikel da Silveira: O populismo, a v谩rzea e o bicho: notas sobre a teoria do populismo e a crise da esquerda.
37Discuti os perigos das estrat茅gias de esquerda sob o predicamento contempor芒neo nesta entrevista. Recomendo tamb茅m os trabalhos de Rafael Oliveira sobre neodesenvolvimentismo e neoliberalismo como forma莽玫es reativas: Dois nomes, uma ontologia: neoliberalismo e neodesenvolvimentismo no governo Lula.
38Dispon铆vel no YouTube.
39Como diz Susan Buck-Morss, em seu cl谩ssico ensaio Hegel e o Haiti (n鈥1, 2017): “a universalidade humana s贸 茅 vis铆vel das bordas”.